Afosé e Olúgbọrun

Olúgbọrun é uma magia yorùbá para dar potência aquilo que falamos.

A palavra tem o significado de “O Senhor escuta a minha voz”.

Olú = Senhor

gbọ = Ouve

run = Voz

 

Nesta magia são colocados diversos materiais, normalmente dentro de um chifre de boi (ressalto que pode ser usado outros tipos de chifres) que são envolvidos num pano vermelho.

O praticante não lambe a magia, ele através do ritual, faz seus pedidos e orações diretamente no Olúgbọrun, inclusive pode ser usado para Òrìṣà, exemplo:

Se um iniciado fizer um ritual e quiser muito que Èṣù possa ouvi-lo, poderá usar o Olúgbọrun preparado para o Òrìṣà que a pessoa quiser que lhe ouça fortemente.

O bàbáláwo Alberto Junior, ressalta que em algumas famílias, por exemplo, na sua, esta classe de tipo de magia costuma ser bem pesada (forte) e há muitos que utilizam para detonar, atacar as pessoas. O bàbá acrescenta que no Brasil, o legítimo Olúgbọrun, assim como alguns tipos de Afosé, são muito difíceis de serem feitos devido as etapas para preparação e os ingredientes. Nesta classe de magia existe algumas bem pesadas que são feitas que o próprio sacerdote costuma guardar escondido numa floresta ou em um local longe de seu templo ou casa, isto é, quando é usado de forma negativa.

É de extrema importância salientar que nem sempre os procedimentos ou nome dado para cada magia será igual, pois varia por famílias tradicionais, além de existir várias magias com chifres que recebem o mesmo nome.

SAIBA DIFERENCIAR!

Embora o Olúgbọrun é bem parecido com uma outra magia conhecida como afosé, há uma grande diferença na forma como é confeccionada e a sua finalidade.

O afosé também é preparado em um chifre de cabrito ou boi, durante o rito é necessário recitar alguns ofós (encantamentos) e existe um número de vezes em que o solicitante deverá lamber ou dependendo do caso, será necessário espetar a língua com uma agulha, sentindo algo naquela região para que possa falar. O afosé geralmente tem como objetivo dar poder a fala.

O nome tem origem no yorùbá e pode ser traduzido como “a fala que faz”. Que seria literalmente que através da palavra, nós realizamos algo, nós fazemos.

Afo = palavra poderosa (vinda do próprio Ser da Criação).

Sé = vem do verbo fazer.

Alguns sacerdotes do culto yorùbá acreditam ser extremamente importante utilizar o afosé e olúgbọrun juntos para um melhor aproveitamento. No Brasil o mais comum de ser feito são os afosé.

Para descomplicar, basta lembrar que:

Olúgbọrun é uma magia para que o Òrìṣà escute nossa voz.

Afosé já seria uma magia para potencializar a nossa fala, seja num pedido ou encantamentos.

VÁRIAS FORMAS DE AFOSÉ

Embora exista muitos tipos, um dos que ficou mais conhecido no Brasil e atualmente (acredito eu), não é mais segredo para ninguém é:

Acordar pela manhã, em jejum, sem falar com ninguém antes, pegue 9 sementes de ataré e mastigue (no caso dos homens).

Se for uma mulher, ao invés de fazer com 9 sementes, serão sete. Caso seja gêmeos são 8 sementes de ataré ou muita das vezes, qualquer pessoa 3 sementes de ataré.

O praticante colocará uma determinada quantidade de gin na boca e irá baforar no assentamento fazendo os pedidos. Algumas famílias considera até mesmo o obí e orogbo um afosé, que dependendo dos elementos que são envolvidos ele poderá dar potência às nossas falas.

 

GRANDE CAUTELA

É importante salientar que os pedidos devem ser para coisas boas e não para o mau das pessoas, pois os Òrìṣà não são escravos das pessoas, todos os pedidos passam por avaliação e reavaliação.

Os yorùbás acreditam que toda oração é ouvida e qualquer uma delas são respondidas, seja com sim ou não. Quando você pede o mal de alguém que não merece, a proteção da pessoa, somado a sua proteção, irá agir de forma justa e o mal praticado voltará contra você mesmo. Se repararmos na vida, muitas pessoas destrutivas acabam se autodestruindo pelo sentimento de inveja, maldade (destruições no geral), enfim.

Existe uma outra magia praticada em algumas famílias, chamada de Apasé, um pó preparado com diversos elementos. Onde após o preparado é feito diversas incisões no lábios da pessoa e este pó é introduzido e assim, sempre quando o praticante for rezar, deverá lamber onde foi feito as incisões, fazer as orações. Posteriormente, é muito comum em famílias que a pessoa tenha que usar um elemento eró para acalmar a sua fala, porque se não, tudo aquilo que aquela pessoa falar de bom ou de ruim, estará sendo potencializado, podendo voltar contra si mesmo.

Os erós são medicinas religiosas muito utilizadas posteriormente ao uso do afosé ou olúgbọrun, para poder acalmar a energia que foi despertada no corpo do indivíduo para evitar que de forma descontrolada tudo que a pessoa diga acabe se manifestando na vida dele. Na cultura yorùbá, para todo ritual praticado existe um antídoto, mesmo que seja para aquilo que seja bom.

Em algumas famílias existe ritos que dão poder a fala na hora da iniciação, o bàbáláwo Alberto Junior conta que numa preparação de alguém para bàbáláwo, é feito algumas incisões na língua da pessoa para que tenha força a fala, e assim, acreditamos que o sacerdote ganha autoridade não somente no conhecimento e experiência, mas como naquilo que transmite oralmente.

 

DÚVIDAS FREQUENTES

• Afosé e olúgbọrun podem ser utilizados constantemente?

A resposta é não!. O uso constante pode trazer problemas na perca de energia vital, inclusive de perder os dentes da boca devido o uso em muita frequência.

• Olúgbọrun é um Òrìṣà?

Consultamos mais de 20 sacerdotes de terra yorùbá e famílias diferentes, ambos mantiveram o mesmo posicionamento de que se trata de uma magia e não de uma entidade ou divindade.

• Todas estas magias são usadas em famílias tradicionais?

Não! Algumas tem suas variações.