Ikú na Religião Yorùbá

Ikú é uma das palavras que costuma ocasionar muito medo e ao mesmo tempo curiosidade sobre o que seria, meu objetivo nesta matéria será trazer explicações de forma prática.
Texto • Awo Ifá Leke – Eduardo Henrique Costa
COMEÇANDO PELA PALAVRA
Esse nome tem origem no idioma yorùbá que significa literalmente “morte”.
Ikú é usado para indicar o fenômeno que ocorre quando alguém encerra o seu ciclo de vida material no Àyié (Terra). Mas pode ser usado religiosamente para se referir o Ajogun ou Òrìṣà ligado a morte, presente no Odú Òyèkú Meji.
ENTENDA QUEM É IKÚ
Em muitas famílias tradicionais de culto yorùbá, Ikú é visto como um Ajogun (significa: guerreiro contra a humanidade) e não um Òrìṣà, pois é de costume entre os cultuadores dizer que Òrìṣà é a força da vida e favorável a manutenção dela. O Bàbáláwo Alberto Junior afirma que Ikú pode ser considerado um Òrìṣà, mesmo que não tenha um culto ou assentamento específico dele, pois é importante a passagem dos seres para outras posições espirituais, garantindo assim, o equilíbrio da natureza e o ciclo da vida dos seres. A morte pode ser encarada como um fenômeno positivo ou negativo dependendo do cuidado e a maneira que cada um se relaciona com sua espiritualidade individual.
Para os povos yorùbás, Ikú não é visto apenas como uma energia de morte, e sim de renascimento, quando um ciclo se encerra, outro se inicia.
IKÚ É UM SER MAL?
Bàbáláwo Alberto explica que por ser uma energia designada por Olódùmarè para executar a passagem dos seres, não é algo macabro ou ruim. O que torna o fenômeno Ikú algo ruim, doloroso, são as próprias imperfeições das pessoas e seus níveis de desenvolvimento espiritual.
Há muitos que acham que Ikú é o “Anjo da Morte”, mas os yorùbás não possui esta ideia de anjos e demônios como as religiões cristãs.
Quando uma pessoa acaba sendo levada por Ikú, o seu corpo humano perde èmí (sopro de vida) o que faz com que a ligação do ser vivo volte para o Orún e se desligue do Àyié. Diferente da maioria do Ocidente que possui uma visão bastante negativa sobre a morte, para os povos yorùbás, aqueles que partem pode ocasionar saudades entre os que se encontram encarnados, mas traz alegria pela volta para o plano espiritual para os espíritos pertencentes ao grupo espiritual daquela pessoa.
Ikú é uma energia de evolução, pois em nosso plano as vezes é necessário passar pela doença, dor, problemas no geral e até mesmo pela morte para poder evoluir. Os Ajoguns não são demônios, pois não disputam almas contra Olódùmarè, o Ser Supremo é capaz de controlar tudo, por ser onisciente, onipotente e onipresente, ressalta o Bàbá.
DIFERENÇAS ENTRE EGÚNGÚN E IKÚ
Muitos acabam confundindo e acreditando que são os mesmos, apenas mudando o nome, porém são energias muito diferentes! Egúngún são ancestrais, podendo ser nossos antigos familiares que viveram no Àyié e retornaram ao Orún. Ikú é um Òrìṣà, Egúngún são espíritos que já passaram pela morte em algum momento.
Os Egúngún são adorados em diversos territórios da África, possuem assentamentos e são feitos sacrifícios para esta energia, mas Ikú não possui culto e não é feito nenhum tipo de sacrifício para este tipo de Ajogun. É comum entre os yorùbás cultuarem Egúngún para ter equilíbrio em sua ancestralidade, além de buscar longevidade e harmonia.
A RELAÇÃO ENTRE ÀBÍKÚ
Não existe ligação direta entre Ikú com Àbíkú, o que ocorre é que as pessoas Àbíkú são aquelas que são nascidas para morrer, podendo carregar esta energia de partir para o Orún de forma prematura. Para evitar mortes precoces, é comum nas sociedades dos bàbáláwo estas pessoas serem iniciadas / prestar cultos para Ẹgbẹ́ Ọ̀run, e assim, harmonizar sua jornada no Àyié.
LIGAÇÕES COM IKÚ
Existe poucos Òrìṣà que possui ligação, entre um deles, podemos citar Oyá, por ser uma energia que ajuda os mortos serem conduzidos para seus devidos planos espirituais acabando tendo esta certa aproximação.
Ọbalúwáiyé é muito tratado como um dos Òrìṣà que promove saúde, não possui ligação com Ikú, é um Òrìṣà ligado a cura, a terra, não sendo responsável por nenhuma passagem dos seres para outros planos.
FENÔMENOS NEGATIVOS
O africano não vê como exagero a possibilidade de existir mortes ocasionadas por ataques espirituais, perseguições, maldições, inclusive de negatividades no orí (cabeça) com pensamentos vingativos, coisas ruins, até mesmo maus tratos com a espiritualidade pode levar a diminuição do tempo de vida terrena.
O que podemos compreender, é que nada nesta vida terrena é absoluto, o tempo é relativo, os destinos podem passar por mudanças, mas a morte um dia chegará para qualquer um de nós. O que podemos fazer por enquanto que ela não chega, é oferecer o nosso melhor durante esta existência, tendo em mente que os atos do presente construirá um futuro mesmo que seja bom ou ruim.
• CRÉDITOS FINAIS
Para elaboração deste conteúdo tivemos a participação do sacerdote Alberto Junior, fundador do Centro Cultural Brasil África .