Influências literárias na Kimbanda

A Kimbanda é uma tradição que frequentemente se torna alvo de polêmicas entre sacerdotes e praticantes das matrizes afro-brasileiras, sobretudo em relação às suas práticas e origens. No entanto, é impossível ignorar o quanto determinadas interpretações sobre ela foram moldadas pela literatura brasileira ao longo do século XX. Esta matéria busca esclarecer alguns pontos históricos e refletir sobre até que ponto a imagem popular da Kimbanda corresponde, de fato, à sua realidade.
Texto • Prof. Eduardo Henrique Costa
Começando pelo nome
Kimbanda e Umbanda possuem diferenças em suas práticas e estruturas religiosas, mas compartilham um princípio essencial: a busca pela cura e pelo equilíbrio espiritual. A própria palavra “Kimbanda” está historicamente associada à figura do curandeiro, do sacerdote que trabalha com práticas espirituais voltadas ao cuidado da comunidade.
Na Umbanda, esse mesmo princípio é facilmente observado dentro dos terreiros. Defumações, passes espirituais, benzimentos e trabalhos energéticos possuem como finalidade restaurar a harmonia física, emocional e espiritual. Em muitos aspectos, tais práticas se aproximam de conceitos presentes em terapias energéticas modernas, como o Reiki, por exemplo.
Apesar dessa riqueza simbólica e espiritual, a Kimbanda acabou sendo conhecida mundialmente, de maneira equivocada, como um “culto de magia negra”. A definição carrega uma ideia automática de maldade e destruição, algo que não se sustenta quando observamos a prática cotidiana dentro dos terreiros.
Se a Kimbanda fosse essencialmente maléfica, por que nela também existem caboclos, pretos-velhos e entidades voltadas à cura? Como explicar relatos de Exus auxiliando pessoas em enfermidades, conflitos familiares e desequilíbrios espirituais?
A separação radical entre Umbanda e Kimbanda nasceu muito mais de construções sociais e morais do que de fundamentos espirituais. Com o passar do tempo, consolidou-se a ideia de que um umbandista não poderia ser também um kimbandeiro, como se fosse impossível transitar entre diferentes formas de espiritualidade sem cair em uma divisão simplista entre “bem” e “mal”.
Esse pensamento, no entanto, ignora um ponto fundamental: tradições religiosas não são responsáveis pelo caráter individual de seus praticantes. A existência de pessoas mal-intencionadas não transforma automaticamente uma religião em algo perverso — da mesma forma que códigos morais elevados jamais impediram completamente a existência de indivíduos de má conduta em outras religiões.
A chamada “guerra entre o bem e o mal” reflete muito mais disputas humanas, ego e arrogância do que qualquer conflito espiritual real. A ideia de que entidades da Umbanda “lutam” contra entidades da Kimbanda demonstra desconhecimento sobre a complexidade das religiões afro-brasileiras. Em qualquer tradição voltada à cura espiritual, podem existir práticas de caridade, acolhimento e auxílio; tudo depende muito mais da consciência do praticante do que da linha espiritual em si.
“Olha a macumba aí!”
Para compreender os primeiros conceitos ligados às religiões afro-brasileiras, é necessário citar uma figura fundamental: Arthur Ramos.

Médico psiquiatra, antropólogo e um dos pioneiros no uso da psicanálise para investigar a cultura brasileira, Arthur Ramos realizou estudos detalhados sobre a chamada “macumba”. Em suas pesquisas de campo, observou que não existia apenas uma única prática religiosa, mas diversas linhas e manifestações espirituais, entre elas a Umbanda e a Kimbanda.
Nesse contexto, torna-se importante compreender que “macumba” não era originalmente um termo associado à maldade. Tratava-se de uma designação genérica utilizada para diferentes rituais religiosos praticados por africanos escravizados, seus descendentes e comunidades negras urbanas.
Essas práticas possuíam elementos em comum: estados de transe, danças, cantos, instrumentos musicais, palmas e rituais coletivos voltados à cura física, psicológica e espiritual. O elemento catártico sempre esteve profundamente presente nessas tradições.
Com o tempo, porém, ocorreu uma transformação significativa. À medida que a Umbanda começava a se estruturar como religião organizada, setores da classe média passaram a exercer forte influência sobre ela. Muitos desses grupos buscavam afastar a religião de tudo aquilo que pudesse ser visto como “primitivo” ou excessivamente africano aos olhos da sociedade cristã da época.
Foi nesse contexto que surgiram frases emblemáticas como: “A Umbanda pratica o bem e a Kimbanda pratica o mal”.
Essa separação serviu, em grande medida, para tornar a Umbanda mais aceita socialmente, aproximando-a de elementos do cristianismo e do espiritismo kardecista, ambos muito mais bem vistos pelas elites urbanas brasileiras. Enquanto isso, a Kimbanda permaneceu associada aos aspectos considerados “densos”, “afrontosos” ou “perigosos”.
A Umbanda reduziu gradativamente o espaço dedicado ao culto de Exus e Pombagiras, enquanto a Kimbanda aprofundou essas práticas. Isso, porém, não significa que a Kimbanda tenha permanecido totalmente livre de influências europeias e cristãs. Pelo contrário: parte das interpretações demonizantes sobre Exu surgiu justamente desse contato cultural.
Também é impossível ignorar a dimensão racial presente nesse processo. Durante muito tempo, a ideia de “bem” esteve associada à branquitude, enquanto tudo aquilo ligado ao negro era visto como perigoso, demoníaco ou inferior.
Basta observar imagens religiosas comercializadas até hoje em algumas lojas de artigos espirituais: divindades africanas frequentemente aparecem embranquecidas. O próprio imaginário popular cristão reforçou a ideia do “santo europeu”, de pele clara e cabelos suaves, enquanto figuras negras eram associadas ao mal.
Diferentemente da Umbanda, a Kimbanda resistiu mais intensamente às pressões cristãs. Por isso, até hoje é frequentemente tratada como algo obscuro ou demoníaco — muitas vezes chamada simplesmente de “linha de esquerda”.
Entretanto, conceitos como “direita” e “esquerda” não são leis espirituais absolutas. São classificações humanas. Um preto-velho pode atuar tanto na chamada direita quanto na esquerda, dependendo da tradição e da interpretação adotada pelo terreiro.
Essa lógica de divisão também influenciou outras manifestações religiosas brasileiras, como o Catimbó e a Jurema Sagrada, além de tradições com influências xamânicas que passaram a ser classificadas como “de direita” ou “de esquerda” conforme se aproximavam ou se afastavam do cristianismo.
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A construção literária da “Kimbanda do mal”
Expressões populares como “se a macumba fosse boa, não teria esse nome” revelam muito mais desconhecimento histórico e linguístico do que qualquer análise séria sobre as religiões afro-brasileiras.
Mas afinal: quem ajudou a consolidar a ideia da Kimbanda como prática maléfica?

Segundo diversos estudos, um dos principais nomes nesse processo foi Lourenço Braga. Em 1941, durante o Primeiro Congresso Espírita de Umbanda, Braga apresentou a ideia de que os trabalhos benéficos pertenciam à Umbanda, enquanto os maléficos estariam ligados à Kimbanda.
No ano seguinte, publicou o livro Umbanda (Magia Branca) e Quimbanda (Magia Negra), obra que se tornou uma das principais responsáveis pela popularização dessa divisão moral entre “bem” e “mal”.
Antes dele, o autor Noel de Souza já utilizava conceitos semelhantes em textos jornalísticos sobre as “sete linhas da Umbanda”, por volta de 1938.

O problema é que essas interpretações acabaram reduzindo tradições extremamente complexas a categorias simplistas e moralistas.
Na prática, o que muitos autores da época criticavam não era necessariamente a espiritualidade em si, mas o fato de determinados frequentadores procurarem os terreiros para resolver questões materiais, amorosas ou financeiras.
Exu, diabo e o imaginário cristão
Outro nome decisivo nesse processo foi Aluizio Fontenelle, autor do livro Exu, publicado em 1952.
Na obra, Fontenelle comparava entidades cultuadas na Kimbanda aos espíritos da Goetia e associava Exu diretamente à figura cristã do Diabo: um ser com chifres, rabo e natureza maligna.

Além disso, negava até mesmo a origem africana da palavra “Exu”, criando teorias sem fundamento histórico ou linguístico. Algumas dessas ideias afirmavam que o nome teria origem em idiomas bíblicos secretos ou em línguas supostamente divinas.
Infelizmente, muitas dessas teorias continuam circulando até hoje.
Em 2018, durante uma conversa com um homem que se apresentava como “mestre em Kimbanda”, ouvi a afirmação de que “Exu” estaria presente nas escrituras hebraicas. Como pesquisador da língua hebraica, estranhei imediatamente a declaração, já que não existe qualquer base acadêmica séria para essa associação.
Grande parte dessas interpretações nasceu justamente da mistura entre misticismo popular, demonologia cristã e desconhecimento das raízes africanas das religiões afro-brasileiras.
O resultado foi a consolidação de um imaginário no qual muitos passaram a acreditar que cultuavam literalmente o Diabo dentro da macumba.
Isso não significa condenar aqueles que cultuam figuras associadas ao satanismo ou ao luciferianismo. A questão central aqui é compreender historicamente como determinadas ideias foram incorporadas à Kimbanda ao longo do tempo.
O preconceito racial também permanece profundamente ligado a essas construções simbólicas. Não por acaso, personagens negros do folclore brasileiro, como o Saci-Pererê, frequentemente foram associados ao Diabo no imaginário popular.
Sincretismo, identidade e confusão religiosa
Fontenelle chegou a afirmar que Exu seria o responsável pelo pecado original de Adão e Eva, além de relacionar entidades da Kimbanda à rebelião de Lúcifer. Essas ideias influenciaram diversos autores posteriores e estimularam o sincretismo entre Exus e daimons da Goetia.
No entanto, afirmar que Exu é um demônio é tão reducionista quanto dizer que Ogum é literalmente São Jorge. São aproximações simbólicas, não equivalências absolutas.
O sincretismo, por si só, não é necessariamente negativo. O problema surge quando diferentes tradições passam a ser tratadas como se fossem exatamente a mesma coisa, apagando suas origens culturais e espirituais.
E quanto à chamada “Kimbanda Luciferiana”?
A palavra “Lúcifer”, em sua origem latina, significa simplesmente “portador da luz”. Em diferentes épocas e culturas, o termo foi utilizado de maneiras variadas, inclusive como nome próprio.
Muitas vezes, conceitos relativamente simples acabam sendo envoltos em mistificações exageradas, alimentadas pelo medo, pelo preconceito e pela desinformação.
Conclusão
A história da Kimbanda mostra que grande parte de sua reputação negativa não nasceu necessariamente de suas práticas originais, mas das interpretações construídas por autores, setores religiosos e visões racistas da sociedade brasileira ao longo do século XX.
Mais do que uma discussão sobre “bem” e “mal”, o debate revela disputas culturais, raciais e religiosas profundamente enraizadas na formação do Brasil.
Entender a Kimbanda exige ir além dos estereótipos. Exige pesquisa, contextualização histórica e, acima de tudo, disposição para compreender tradições afro-brasileiras sem reduzi-las a caricaturas criadas pelo medo ou pela intolerância.