Ògún no Culto Yorùbá

Aprenda sobre Ògún, um dos guerreiros do panteão yorùbá, um Òrìṣà antigo e considerado Senhor do Universo.
Texto • Awo Ifá Leké – Eduardo Henrique
Ògún ficou conhecido no Brasil como um grande guerreiro, desbravador dos caminhos, senhor das estradas, quase 90% das pessoas acreditam que Ògún é apenas o Òrìṣà guerreiro, porém não é apenas isso! Ògún é o Òrìṣà que chegou no Àiyé (Terra) com o objetivo de despertar as pessoas. Na terra yorùbá ele é visto como o Òrìṣà da tecnologia, espírito do ferro. Os versos de Ifá, ensina que Ògún, ajudou as pessoas a forjarem as ferramentas necessárias para cultivar a sobrevivência e o progresso delas.
Foi através do cobre, posteriormente, o minério de ferro que conseguiram criar os primeiros utensílios para o desenvolvimento da Humanidade. Em algumas histórias, Ògún teria sido aquele que abriu caminho para os outros Òrìṣà, recebendo assim, o título de “Asiwaju” que no português podemos entender como “vem na frente”, representando o pioneirismo.
Ògún foi aquele que deixou para as civilizações através da evolução, a possibilidade de desenvolver a tecnologia, não é atoa que até hoje é assim, os minerais terras raras, por exemplo, são utilizados para o desenvolvimento de tecnologias militares, além de transportes, entre outros, sendo um dos mais explorados por grandes países como Estados Unidos e China.
Ògún foi aquele que provocou a consciência tecnológica através do olhar para a natureza, por exemplo, o homem somente conseguiu, fazer o avião que tem um peso gigantesco, que ele voasse, através da observação dos pássaros, aerodinâmica das aves e como poderiam fazer que aquilo fosse possível transportando pessoas…
Ògún sem sombras de dúvidas, é ligado as forjas, as agriculturas, as armas, as construções, metalurgias, além de ser considerado protetor daqueles que lidam com ferro, aço, materiais cortantes, lâminas, como: serralheiros, cabeleireiros, soldados militares, mecânicos, entre outros.
Yorùbás praticantes do Culto a Ògún, costumam dizer que “Ògún é caminho, Ògún é trabalho”, e muitas magias, como por exemplo, ẹbọ para progresso ou ajuda no trabalho costumam serem oferecidos a este Òrìṣà.
Ògún era o mais velho e combativo filho de Odùduwà, o conquistador e rei de Ifè (nome da cidade). Tornou-se o regente do reino quando Odùduwà, momentaneamente, perdeu a visão.
Ògún foi um grande herói civilizador, o Òrìṣà responsável pela expansão dos territórios, temível, tanto que em algumas frases de grande referência a este Òrìṣà, é dito:
“Ògún, que tendo água em casa, lava-se com sangue”.
• Ìtan (história)
Nos ensinamentos orais, conta que Ògún continuou com suas guerras após assumir o posto de seu pai como rei. Durante uma delas, ele tomou Irê que antigamente era formada por sete aldeias. E assim, até hoje alguns o chamam “Ògún mejejê lodê lrê”, Ògún das sete partes de Irê!
Ògún recebeu diversos títulos quando estava encarnado no Àiyé, um deles foi de “Ògún Onírè”, quando matou o rei Onírè e o substituiu pelo próprio filho, conservando para si o título de Rei. Por isso, ficou conhecido como o Rei de Irê. Entretanto, ele foi autorizado a usar apenas uma pequena coroa (akorô), ficando assim, conhecido como “Ògún Àlákòró”, ou seja, Ògún o dono da pequena coroa.
Nas histórias conta que após Ògún ter colocado o seu filho no trono de Irê, resolveu voltar para as guerras, ficando fora da sua morada por longos anos.
Quando Ògún voltou a Irê, já tinham se passado muito tempo, ele não havia reconhecido o lugar. Por infelicidade, no dia da sua chegada, estavam celebrando uma cerimônia na qual havia um preceito a ser seguido que exigia para que os praticantes ficassem em total silêncio, não pronunciando nenhuma palavra.
Ògún tinha muita fome e sede.
Ele viu jarras de vinho de palma, mas não sabia que elas estavam vazias, o silêncio geral não permitia que as pessoas falassem com Ògún, o que pareceu-lhe um sinal de desprezo.
Ògún tinha uma paciência curta, o que o fez encolerizar.
Quebrou as jarras com golpes de espadas e cortou a cabeça das pessoas. Quando a cerimônia havia acabado, o seu filho apareceu, porém era tarde demais.
Após seu filho acalmá-lo, Ògún se sentiu muito arrependido, lamentando seus atos de violência. Ògún reconheceu seu erro, e por travar tantas guerras, a luta jamais o deixava.
Este Òrìṣà resolveu que era tempo de parar, pois já tinha vivido grandes feitos, ele baixou sua espada e desapareceu, tornando-se exatamente, um Òrìṣà.
Essa história ensina valores importantes, onde um deles é entender se a guerra é no seu interior ou do lado de fora. Ensina que muita das vezes não é bom fazer nada cego pela fúria, é necessário buscar entender o outro lado, compreender o que está acontecendo antes de querer sentenciar pessoas, e o mais importante, não importa o tamanho do erro, é necessário ser homem e reconhecê-lo.

• Saudação
Na terra yorùbá, é comum saudá-lo como “Ògún alákáyé”, que traz o sentido de liderança deste Òrìṣà.
A forma completa seria “Ògún alákáyé, Osìn imole, ibà o!”, trazendo para o português seria basicamente “Ògún, senhor do Universo, líder dos Òrìṣà, eu te saudo”.
No Brasil, muitos o saúdam no Candomblé e na Umbanda como “Ògún yè, pàtàkòrí” que tem o sentido de alguém importante, digno de ser louvado, por alguns erros de tradução alguns passaram acreditar que significa “cortar a cabeça” mas não é este o significado. Um outro esclarecimento importante é que existe uma grande diferença em ser Òrìṣà guerreiro para: ser Òrìṣà da guerra, muitos entende que ele é isso por misturar a palavra Ògún com Ogun.
Para melhor entendimento, no yorùbá há suas variações na mesma palavra dependendo da forma como é dita, vejamos:
Ògún = Òrìṣà do ferro, da tecnologia e desbravador dos caminhos…
Ògùn = Nome dado ao rio onde se cultua Yemọja.
Ogun = Palavra usada para se referir a guerra, exércitos ou batalhas.
Ogún = Número 20. Mas pode ser usado para se referir a herança ou doação.
Veja um vídeo do transe de Ògún na Nigéria