terça-feira, março 10, 2026
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Bembé do Mercado: tradição centenária do candomblé ganha destaque nacional após enredo da Beija-Flor

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Festa religiosa nascida no pós-abolição em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, torna-se símbolo de resistência cultural e inspira enredo apresentado no Sambódromo da Marquês de Sapucaí em 2026.

Em 2026, o tradicional desfile das escolas de samba do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, trouxe ao público uma narrativa marcada pela memória histórica e pela valorização das tradições afro-brasileiras. A escola Beija-Flor de Nilópolis apresentou um enredo inspirado no Bembé do Mercado, celebração religiosa e cultural realizada na cidade de Santo Amaro da Purificação, no Bahia.

O desfile conquistou grande repercussão entre o público e os jurados, garantindo à escola o segundo lugar no ranking do carnaval carioca daquele ano, com 269,9 pontos, ficando a apenas um décimo da campeã Unidos do Viradouro. Mais do que um espetáculo carnavalesco, a apresentação despertou interesse nacional pela história do Bembé do Mercado, considerado por pesquisadores e religiosos como o maior candomblé de rua do mundo.

 

A origem de uma celebração de resistência

O Bembé do Mercado surgiu no final do século XIX em um contexto social marcado por profundas desigualdades. Localizada no Recôncavo Baiano, a cidade de Santo Amaro era, durante o período colonial e imperial, um importante centro produtor de açúcar e alimentos, cuja economia estava fortemente baseada no trabalho escravizado.
Mesmo após a promulgação da Lei Áurea, em 1888, a população negra continuou enfrentando restrições sociais, econômicas e culturais. As manifestações religiosas de matriz africana, como o Candomblé, frequentemente sofriam repressão policial e exigiam autorização das autoridades para serem realizadas publicamente.

Escultura João de Obá. Foto: Divulgação

Nesse contexto, em 13 de maio de 1889 — exatamente um ano após o fim oficial da escravidão — sacerdotes e praticantes do candomblé decidiram ocupar o espaço público para celebrar a liberdade recém-conquistada. Liderados por João de Obá, importante figura religiosa da região, filhos e filhas de santo reuniram-se na Ponte do Xaréu e seguiram até o mercado da cidade, onde realizaram rituais e oferendas aos orixás.

A celebração marcou simbolicamente a afirmação da cultura afro-brasileira em um espaço público, transformando ruas, feiras e a beira-mar em territórios de fé e memória coletiva. Desde então, a festa passou a ser repetida anualmente, consolidando-se como uma das manifestações religiosas e culturais mais emblemáticas do país.

Ritual, memória e identidade

Realizado tradicionalmente no mês de maio, o Bembé do Mercado reúne terreiros de diversas nações do candomblé. Durante a celebração, ocorrem toques de atabaques, cantigas sagradas, cortejos religiosos e oferendas aos orixás lançadas ao mar.

Para estudiosos da cultura afro-brasileira, a festa representa um exemplo expressivo de resistência cultural. O antropólogo Pierre Verger, que dedicou grande parte de sua obra ao estudo das religiões de matriz africana, observou que práticas como o candomblé funcionaram historicamente como “instrumentos de preservação da memória africana no Brasil” (VERGER, 1981).

Já o pesquisador Muniz Sodré destaca que manifestações religiosas públicas, como o Bembé, contribuíram para fortalecer identidades coletivas afro-brasileiras em períodos de intensa repressão cultural (SODRÉ, 2002).

O Bembé na avenida

Ao levar o tema para o carnaval de 2026, a Beija-Flor de Nilópolis transformou a avenida em um grande cortejo simbólico. Alegorias representaram elementos centrais da celebração, como o mercado, o mar e os rituais dedicados aos orixás.

O desfile buscou reproduzir o espírito da festa original: a ocupação do espaço público como expressão de fé, cultura e resistência. A narrativa também destacou a importância histórica do Recôncavo Baiano na formação da identidade afro-brasileira.

A forte presença de símbolos religiosos e culturais chamou a atenção do público e reforçou o papel do carnaval como espaço de memória histórica. Como observa o historiador Luiz Antonio Simas, “o desfile das escolas de samba frequentemente atua como uma forma de contar histórias que foram marginalizadas pelos registros oficiais da história brasileira” (SIMAS; RUFINO, 2018).

Entrega dos presentes durante o Bembé do Marcado Foto: Jurandy Boa Morte/@chezboamorte/Divulgação

Uma tradição que atravessa gerações

Mais de um século após sua origem, o Bembé do Mercado continua sendo realizado anualmente em Santo Amaro. A celebração tornou-se patrimônio cultural da cidade e atrai pesquisadores, turistas e religiosos de diferentes regiões do país.
Além de sua dimensão espiritual, o evento representa uma afirmação da memória afro-brasileira e da luta por reconhecimento cultural. A repercussão nacional gerada pelo desfile da Beija-Flor em 2026 contribuiu para ampliar a visibilidade dessa tradição centenária, reforçando sua importância para a história e identidade do Brasil.

 

Referências
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
SODRÉ, Muniz. O Terreiro e a Cidade: a forma social negro-brasileira. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.
SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Fogo no Mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2018.
VERGER, Pierre. Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 1981.
BRASIL. Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888 (Lei Áurea). Declara extinta a escravidão no Brasil.

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