Monumento foi inaugurado em julho, em um templo de Quimbanda na Taíba, litoral do Ceará. Obra teria custado mais de R$ 100 mil e foi financiada pela líder religiosa Mãe Rainha das Trevas.
Uma estátua de aproximadamente 11 metros de altura dedicada ao Diabo passou a chamar a atenção em todo o país após ser inaugurada no distrito de Taíba, em São Gonçalo do Amarante, na Região Metropolitana de Fortaleza, no Ceará.
O monumento foi instalado dentro de uma propriedade particular onde funciona o Palácio Estrela Negra da Quimbanda, espaço religioso comandado pela líder conhecida como Mãe Rainha das Trevas.
A inauguração ocorreu em 25 de julho de 2026, durante as comemorações dos 29 anos de fundação da casa religiosa. Segundo a própria responsável pelo espaço, a obra custou mais de R$ 100 mil, pagos integralmente com recursos próprios.
A repercussão, entretanto, ultrapassou a questão artística. A construção provocou manifestações de apoio, críticas e ataques nas redes sociais, reacendendo discussões sobre liberdade religiosa, intolerância contra religiões de matriz africana e os limites da atuação do poder público diante de manifestações religiosas realizadas em propriedades particulares.
Como a estátua foi construída
A estátua foi construída dentro do terreno pertencente à líder religiosa. Segundo Mãe Rainha das Trevas, o projeto contou com a participação de um engenheiro civil e todo o investimento saiu de recursos próprios.
A responsável também afirmou que procurou os órgãos públicos para obter as autorizações necessárias para a construção do empreendimento.
O local está inserido na Área de Proteção Ambiental (APA) das Dunas do Litoral Oeste, razão pela qual questões ambientais também fizeram parte do processo de autorização.
A Secretaria do Meio Ambiente do Ceará informou que sua atuação esteve relacionada à análise ambiental para a implantação de um templo religioso. O órgão ressaltou, contudo, que não cabe à secretaria analisar o conteúdo religioso ou artístico representado por uma estátua, ficando a regularidade construtiva sob responsabilidade do órgão municipal competente.
A Prefeitura de São Gonçalo do Amarante, em seu primeiro posicionamento sobre o caso, afirmou que o empreendimento havia passado pelos procedimentos ambientais e urbanísticos previstos e defendeu o respeito à liberdade de crença e de culto.
Por que a estátua foi construída?
De acordo com Mãe Rainha das Trevas, o monumento possui uma finalidade essencialmente religiosa.
A representação do Diabo, dentro da tradição seguida pela líder, não corresponde necessariamente à interpretação demoníaca presente em segmentos do cristianismo. Ela afirma enxergar essas entidades a partir de uma perspectiva de espiritualidade, proteção, auxílio e transformação.
A estátua também foi apresentada como uma forma de homenagear a entidade cultuada e marcar os 29 anos de existência do Palácio Estrela Negra da Quimbanda.
A própria responsável pela obra declarou que considera o monumento uma representação de sua fé e afirmou que, para sua tradição, a palavra “demônio” não possui necessariamente o sentido pejorativo atribuído por outras religiões.
Embora Mãe Rainha das Trevas tenha declarado que a obra seria a maior estátua do Diabo do mundo, não há, até o momento, um registro oficial que confirme esse título.
Quem é Mãe Rainha das Trevas?
A responsável pela construção se apresenta publicamente como Mãe Rainha das Trevas e como feiticeira ligada à Quimbanda.
Ela possui uma forte presença nas redes sociais, com aproximadamente 800 mil seguidores, onde divulga aspectos de sua prática religiosa, rituais e atividades desenvolvidas em seu templo. Também se apresenta como a “Feiticeira dos políticos” e afirma receber consultas de parlamentares.
Sua trajetória religiosa, segundo relatos publicados por veículos que acompanharam o caso, antecede a construção do templo na Taíba.
Antes de se estabelecer na atual propriedade, Mãe Rainha das Trevas viveu durante aproximadamente quatro anos no bairro Montese, em Fortaleza, onde mantinha um espaço conhecido como Casa dos Caixões. O local era pintado de preto e possuía quatro caixões, elementos utilizados por ela como parte da representação de sua fé.
Foi naquele período que, segundo seu próprio relato, começaram os episódios de preconceito e críticas relacionados à sua prática religiosa.
Posteriormente, ela se estabeleceu na Taíba, onde desenvolveu o Palácio Estrela Negra da Quimbanda. O templo completou 29 anos em julho de 2026.
O que é a Quimbanda?
A repercussão da estátua também trouxe à discussão uma prática religiosa que ainda é pouco conhecida por grande parte da população brasileira.
A Quimbanda possui diferentes tradições e linhagens e, conforme especialistas ouvidos nas reportagens sobre o caso, seus fundamentos são transmitidos principalmente pela tradição oral.
O sacerdote identificado como Barok, Tata N’ganga de Quimbanda brasileira, explicou que a prática foi historicamente associada ao “lado negativo” da Umbanda por interpretações preconceituosas. Segundo ele, dentro de determinadas tradições de Quimbanda, o objetivo está relacionado à evolução espiritual e ao culto de Exus e Pombagiras.
Também não existe consenso histórico absoluto sobre a origem e o desenvolvimento da Quimbanda brasileira. O próprio termo é relacionado aos povos de origem banto e à palavra “kimbanda”, associada historicamente a curadores, especialistas e praticantes de conhecimentos espirituais.
Por isso, reduzir a Quimbanda à ideia de “culto ao mal” representa uma interpretação religiosa externa à diversidade existente dentro dessas tradições.
Críticas e acusações de intolerância religiosa
Depois que imagens da estátua começaram a circular nas redes sociais, a líder religiosa passou a receber uma grande quantidade de comentários
Parte das manifestações foi de curiosidade ou apoio, enquanto outras continham críticas e ataques direcionados à sua fé.
Mãe Rainha das Trevas afirmou que os ataques representam intolerância religiosa e racismo religioso. Segundo ela, manifestações semelhantes já aconteciam antes da construção do monumento.
A discussão ganhou ainda mais força porque a figura do Diabo possui um significado profundamente negativo em diversas tradições cristãs. Para esses grupos, portanto, uma grande representação do Diabo em espaço religioso pode ser vista como uma provocação ou afronta.
O ponto central do debate jurídico, entretanto, é que a interpretação religiosa de um grupo não pode ser utilizada, por si só, para retirar de outro grupo o direito de professar sua própria crença.
A Constituição Federal estabelece, no artigo 5º, inciso VI, que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e a proteção aos locais de culto e suas liturgias.
Além disso, a legislação brasileira prevê punições para discriminação ou preconceito motivados por religião. A Lei nº 7.716/1989 também criminaliza a prática, indução ou incitação à discriminação ou preconceito religioso e prevê proteção contra atos que impeçam ou obstruam manifestações religiosas.
Isso não significa, porém, que toda crítica a uma religião seja automaticamente crime. A caracterização de intolerância religiosa depende do conteúdo, do contexto e da conduta praticada.
Por que a Prefeitura se posicionou?
A Prefeitura de São Gonçalo do Amarante passou a ser envolvida diretamente na discussão porque a propriedade está submetida às regras municipais de urbanismo e também às exigências ambientais aplicáveis à região.
Em um primeiro momento, o Município informou que o empreendimento havia seguido os procedimentos legais e reforçou seu compromisso com a liberdade religiosa.
A manifestação ocorreu justamente porque começaram a surgir questionamentos públicos sobre a legalidade da construção e pedidos para que o monumento fosse retirado.
O posicionamento inicial da Prefeitura foi de que o licenciamento ambiental e urbanístico dizia respeito ao empreendimento religioso, analisado de acordo com a legislação vigente, e que o Município respeitaria a liberdade de crença e de culto.
Posteriormente, entretanto, surgiu uma segunda discussão.
O prefeito Marcelo Ferreira Teles, conhecido como Professor Marcelão, passou a afirmar que as autorizações concedidas tratavam da construção do templo e não especificamente da estátua. Segundo ele, técnicos municipais deveriam verificar se o monumento atendia às exigências construtivas.
Essa diferença de interpretação é importante: uma coisa é a autorização ambiental e urbanística para o empreendimento religioso; outra é verificar se determinada estrutura construída dentro dele possui todas as exigências técnicas e documentais aplicáveis.
A própria Secretaria do Meio Ambiente do Ceará afirmou que sua análise se restringia às questões ambientais e que não havia autorização específica da secretaria para o conteúdo ou representação da estátua.
O caso chegou às autoridades
A polêmica deixou de ser apenas uma discussão nas redes sociais.
Em agosto, Mãe Rainha das Trevas apresentou denúncias relacionadas a possíveis atos de intolerância religiosa.
Segundo informações divulgadas posteriormente, a Polícia Civil passou a apurar uma denúncia envolvendo possível crime contra o sentimento religioso, enquanto o Ministério Público do Ceará abriu procedimento para investigar denúncia de possível intolerância religiosa.
A situação envolveu também manifestações públicas do prefeito contrárias à permanência da estátua, o que levou a líder religiosa a alegar que declarações de um agente público poderiam estimular preconceito ou hostilidade contra sua comunidade religiosa.
O prefeito, por outro lado, afirmou que sua preocupação estava relacionada às questões técnicas e à regularidade da construção, negando que sua atuação representasse intolerância religiosa.
Até o momento, portanto, é importante separar três discussões diferentes: a liberdade religiosa, a eventual ocorrência de intolerância religiosa e a regularidade técnica e administrativa da construção.
Muito além da estátua
O Palácio Estrela Negra da Quimbanda não funciona apenas como cenário do monumento.
Segundo relatos da própria líder religiosa, o espaço recebe mensalmente atividades religiosas e eventos que podem reunir entre 200 e 300 pessoas.
Mãe Rainha das Trevas também afirma realizar ações sociais, incluindo a distribuição de alimentos provenientes das cerimônias religiosas e campanhas de arrecadação e entrega de brinquedos para crianças.
Essas atividades fazem parte da maneira como a comunidade religiosa procura se apresentar para além da polêmica provocada pelo monumento.
Um símbolo que ultrapassou os muros do templo
A estátua de 11 metros acabou se transformando em algo maior do que uma construção dentro de uma propriedade particular.
Para seus responsáveis e frequentadores, representa uma manifestação de fé, identidade e homenagem espiritual.
Para parte dos críticos, a imagem causa desconforto justamente por representar uma figura considerada demoníaca em outras tradições religiosas.
E, para o poder público, a questão envolve simultaneamente liberdade religiosa, cumprimento das normas urbanísticas e ambientais e a necessidade de garantir que nenhuma manifestação religiosa seja alvo de discriminação.
O episódio demonstra como a diversidade religiosa brasileira pode produzir conflitos quando diferentes sistemas de crenças se encontram no espaço público.
Independentemente da interpretação que cada pessoa tenha sobre o Diabo, sobre a Quimbanda ou sobre a própria estátua, o debate jurídico brasileiro parte de um princípio: o Estado não deve escolher qual religião é verdadeira ou falsa, boa ou ruim. Seu papel é garantir direitos, fiscalizar o cumprimento das leis e proteger as pessoas contra discriminação e violência.
A controvérsia envolvendo o monumento cearense, portanto, permanece como um caso emblemático de discussão sobre os limites entre liberdade religiosa, direito à manifestação de crença, responsabilidade administrativa e combate à intolerância.
Créditos e fontes de consulta
Esta matéria foi produzida de forma independente, a partir de informações públicas consultadas em reportagens e documentos disponíveis sobre o caso.
Principais fontes consultadas:
g1 Ceará — reportagens sobre a construção da estátua, a trajetória de Mãe Rainha das Trevas, a posição inicial da Prefeitura de São Gonçalo do Amarante e os desdobramentos envolvendo denúncias de intolerância religiosa.
Opinião CE — informações sobre as manifestações posteriores de Mãe Rainha das Trevas e os questionamentos envolvendo as autorizações do templo e da estátua.
Constituição Federal — Presidência da República — artigo 5º, inciso VI, sobre liberdade de consciência, crença e culto.
Lei Federal nº 7.716/1989 — Presidência da República — legislação referente a crimes resultantes de discriminação ou preconceito, incluindo religião.
Observação editorial: as informações relativas às crenças, práticas religiosas, trajetória pessoal e declarações de Mãe Rainha das Trevas são apresentadas conforme relatos publicados pela imprensa e declarações atribuídas à própria líder religiosa. A afirmação de que a estátua seria “a maior do mundo” não foi tratada como fato comprovado, pois não foi localizado registro oficial que confirme o suposto recorde.


