A névoa da desinformação
Lages, a cidade onde cresci, tem paisagens que encantam e um clima que abraça quem chega. No entanto, quem permanece e olha com um pouco mais de profundidade começa a perceber uma névoa mais espessa do que o frio da serra: a da desinformação, da intolerância e da resistência às mudanças que o tempo exige.
Além disso, como em tantas cidades brasileiras, temas importantes ainda são tratados com sarcasmo ou simplificados em piadas vazias.
Quando a piada revela preconceito
Recentemente, vivi um exemplo sutil que me atravessou de forma desconfortável. Minha gata, uma exploradora nata, adotou duas casas: a minha e a da vizinha. Um comportamento curioso, mas absolutamente natural para quem convive com felinos.
No entanto, ao comentar isso, ouvi de um familiar uma comparação infeliz com o MST. A tentativa de humor, na prática, escancarou algo muito mais sério: a falta de entendimento sobre o que o Movimento Sem Terra representa e os mitos que ainda impedem um debate honesto sobre a reforma agrária no Brasil.
Muitos diriam: “Era só uma piada”. Porém, é justamente aí que mora o problema. O riso fácil, sem reflexão, alimenta preconceitos antigos. O desconhecimento é tratado como opinião. A ignorância, muitas vezes, vem embalada em tons de deboche.
O ranço do coronelismo em Lages
Percebo ainda um ranço do coronelismo entranhado na política local. Ou seja, uma estrutura onde o poder parece ser mais um projeto pessoal do que uma ferramenta para o bem coletivo.
Esse cenário se torna ainda mais sensível quando temos, pela primeira vez em muito tempo, uma mulher na prefeitura. Uma liderança que, além dos desafios administrativos, precisa diariamente driblar o machismo estrutural e os interesses políticos daqueles que jamais quiseram, de fato, dividir poder.
Superficialidade e crueldade social
A superficialidade com que muitos tratam temas políticos, sociais e humanos me preocupa. Em outras palavras, vejo uma sociedade que reage mais ao “assunto do momento” do que se compromete com o entendimento profundo das questões.
É como se tudo se resumisse a manchetes, boatos e memes. Portanto, não se trata apenas de algo inofensivo. Isso é cruel. Porque a desinformação não fica no campo das ideias: ela afeta vidas concretas.
Por que precisamos de mais dúvida e escuta
Minha intenção não é posar de superior ou intelectual. Muito menos impor verdades. Ainda assim, acredito que precisamos cultivar algo essencial: a dúvida. O questionamento honesto. A escuta antes da resposta. O respeito antes do julgamento.
Logo, é preciso parar de tratar o conhecimento como ameaça e começar a vê-lo como possibilidade. Precisamos de mais humildade intelectual, mais empatia social e, acima de tudo, mais coragem para desafiar o senso comum — inclusive dentro de casa.
No fim das contas, não é a piada que me incomoda. É o que ela revela. E o silêncio que a sustenta.