terça-feira, janeiro 31, 2023
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A importância do Obi na Tradição Yorùbá

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Um dos elementos mais importante utilizado no culto a Orúnmìlá-Ifá e no culto aos Òrìṣà. Nas cerimônias jamais pode faltar Obi, pois além de ser usado como oferenda, serve para comunicação com o Òrún (céu). É conhecido como noz de cola.

Toda vez que visito a casa de meu Babalawo costuma ter mais de cem obis em seu estoque, porque serão usados com frequência nos ebós, iniciações, festivais, orações e muito mais. O Obi costuma ser consumido em algumas cerimônias, é a fonte do bem, símbolo da oração no Òrún e que representa a misericórdia infinita de Olódùmarè. O Obi não é somente usado na África, no Candomblé, assim como no culto de Orúnmìlá-Ifá é imprescindível. Sem ele não é feito nenhum rito, é preciso uma comunicação durante a prática, pois para que o rito prossiga, com aceitação dos Òrìṣà, é preciso uma resposta positiva que será fornecida por meio do Obi.

O Obi é colhido da árvore que recebe o nome científico de Cola acuminata. São árvores de baixa estatura, tronco cinzento, folhagem brilhante. Os frutos são umas capsúlas secas, que se abrem ao secar liberando as sementes. A substância cola, costuma ser usada em xaropes, em bebidas e refrigerantes, é obtida do pó do Obi. Há praticantes que costumam comê-las frequentemente como fonte de energia, devido essas nozes serem ricas em cafeína.

Existe um Itan (história) onde Orúnmìlá revela como o Obi foi criado. Quando Olódùmarè (Deus) descobriu que as divindades estavam se digladiando e, antes de se esclarecer que era o responsável pela beligerância, decidiu convocar as quatro divindades mais moderadas, a Paz (Ibalé Okan), a Prosperidade (Ire Gbogbo), a Longevidade (Ire Aikú) e Àyié, a única divindade feminina presente, para chegarem a um consenso sobre a situação.

Um dos temas discutidos exaustivamente foi sobre o motivo dos jovens não mais respeitarem os mais velhos, como fora ordenado por Olódùmarè.

Todos começaram então a rezar pela volta da harmonia e do equilíbrio fraterno. Olódùmarè abriu e fechou sua mão direita apanhando o ar. Na sequência abriu e fechou sua mão esquerda, novamente apanhando o ar. Logo após saiu e, mantendo suas mãos fechadas, plantou o conteúdo delas, junto com as orações.

No dia seguinte uma árvore havia crescido no lugar onde Olódùmarè havia plantado as orações que apanhou no ar. A árvore frondosa rapidamente cresceu, floresceu e deu frutos. Quando os frutos estavam maduros e prontos para a colheita, começaram a cair no chão. Àyié as coletou e as levou para Olódùmarè e ele falou para ela preparar do modo que ela mais gostasse.

Inicialmente ela tostou os frutos, porém sua textura modificou-se substancialmente, ficando dura e os frutos, com gosto desagradável. No dia seguinte, coletou mais frutos e os cozinhou em água. Elas sofreram alteração de cor e não podiam ser comidos.

Paralelamente, as demais divindades fizeram outras tentativas que, no entanto, se mostraram sem sucesso. Foram então até Olódùmarè para comunicar a tarefa de descobrir como preparar os frutos, que era inviável.

Quando todos já haviam desistido, Elinini, a divindade dos Obstáculos, volutariou-se para guardar os frutos. Todos os Obis colhidos foram confiados a Elinini. Ela quebrou as cápsulas, limpou, lavou os Obis e guardou-os por 14 dias com folhas da árvore, para que permanecessem frescas. Dia após dia, ela comia os Obis crus que havia guardado.

Aguardou mais catorze dias e percebeu que eles continuavam vigorosos e frescos. Em seguida, Elinini levou as frutas para Olódùmarè e disse a todos que o produto das orações, o Obi, poderia ser comido sem nenhum perigo.

Como foi Elinini, a mais velha divindade em sua casa, que conseguiu descobrir o segredo do produto das orações, Olódùmarè então decretou que os Obis deveriam, daquele dia em diante, não seriam apenas alimento do Òrún, mas também em todo local sagrado. Deveriam sempre ser oferecidos inicialmente aos idosos do grupo e também o seu consumo deveria ser sempre precedido por orações.

Olódùmarè também determinou que, como um símbolo de oração, a árvore somente cresceria em locais onde as pessoas respeitassem os mais velhos.

Naquela reunião do Conselho Divino, o primeiro Obi foi partido pelo próprio Olódùmarè e continha duas partes. Ele pegou uma e ofereceu a outra para Elenini, a mais antiga divindade presente.

O Obi seguinte tinha três partes, os quais representavam três divindades masculinas que proferiram as orações que fizeram nascer a árvore do Obi.

O próximo tinha quatro peças e incluía assim Àyié, a única mulher que estava presente na celebração.

O próximo tinha cinco partes e incluiu Òrìsàla.

O último Obi tinha seis partes representando a harmonia, o desejo das orações divinas. Esse Obi com seis partes foi repartido e distribuído entre todos os membros do Conselho.

Àyié trouxe Obi para a Terra, onde sua presença é marcada por orações e só germina e floresce em grupos humanos em cujos quais os mais velhos e os ancestrais são respeitados e onde a tradição é glorificada.

Um outro fruto sagrado muito utilizado no culto aos Òrìṣà, podendo até ser para substituir o Obi, é o Órogbó (Garcinia Kola). É bastante utilizado nos rituais e oferendas de Orúnmìlá-Ifá, Sàngó, Òsonyin e outros Òrìṣà masculinos.

Autor: Awo Omo Ifá Leké – Eduardo Henrique. Professor e pesquisador da cultura africana.

Fonte consultada:
Adekunle, Otunba, Ifá Filosofia e Ciência de Vida. 1.ed. São Paulo, 2005.

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