Ajé Ṣaluga é um Òrìṣà feminino filha da divindade do oceano que se chama Olóòkun. Em boa parte das famílias yorùbás que conheço, ela seria um Òrìṣà funfun (branco).
Observação: Olóòkun é considerado uma figura masculina em algumas famílias na África (como na minha) e em Cuba, mas há famílias que o cultua como Òrìṣà feminino.
Texto • Awo Ifá Leké – Eduardo Henrique
Òrìṣà funfun são seres espirituais que são representados pela cor branca, inclusive em suas vestimentas, além de certos ritos envolver o branco.
A palavra Ajè pode ser traduzida como Progresso para você, sucesso para você e Que aquilo que você espera de seu trabalho se concretize” (SÀLÁMÌ, 2015, p. 80)
Ajé Ògúgúlúsò significa Ajê, Senhora da morada da sorte e das realizações do homem. Ajé Ṣaluga significa Ajê, Senhora do paraíso da riqueza.
“Ela, com seu poder, reconhece e remunera o esforço do ser humano. Ajé é o Òrìṣà das conquistas humanas e […] um Òrìṣà que também traz o significado do trabalho e da vida. Ela faz com que nossos esforços, nossas tentativas, nossos sonhos e nossa realidade não sejam em vão […] “- Ògúndáre Sówùmni
Muitos dos iniciados em Ajé, costumam ser iniciados também em Yemọja, Olóòkun e Ọ̀ṣun dependendo do Odú. Principalmente, filhas de Yemọja tem o hábito de cultuar Ajé para o progresso.
Ajé é o Òrìṣà da prosperidade, da boa sorte e representante do dinheiro dos humanos e dos Òrìṣà. Ajé é conhecida em algumas regiões da África como uma Ìyá-Agbà (Mãe Anciã ou Mãe Idosa e Respeitável).
Em boa parte da tradição yorùbá, ela é representada pelas conchas marítimas, e acredito que um dos motivos é por conta que dentro de tudo que existe em nosso planeta, o que o ser humano tem mais dificuldade em dominar e conhecer é o oceano, e se fomos parar para refletir, está mais fácil a ciência saber sobre o sistema solar do que sobre o que há debaixo do fundo do oceano e tudo que nele acontece, e se até hoje há muitos mistérios, imagine no passado. Dessa forma, os yorùbás sempre consideram que tudo que vem do mar, é considerado riquezas, como por exemplo, conchas, búzios, alimentos que vem dos peixes, e até mesmo o próprio sal…
Existe até uma cantiga em yorùbá que em português seria:
“Olóòkun, que nunca nos falte o sal, o sal que tempera e que conserva os nossos alimentos, que nunca nos falte o sal”.
Para a religião tradicional yorùbá, o mar é onde detêm boa parte da riqueza, através deste conceito, os yorùbás também acreditam que Olóòkun é um Òrìṣà da prosperidade, mas quando teve uma filha, ela se chamou Ajé e esta menina ficou responsável por compartilhar o progresso e prosperidade com o ser humano, além de ter dentro do panteão yorùbá, o papel fundamental de ensinar as pessoas a lidar com sua sorte, seja ela profissional ou financeira.
Existem pessoas que podem ganhar cem mil reais em menos de um mês, e que infelizmente, por conta de algum desalinhamento energético, podendo ser problemas ancestrais, de orí, … e acabam que estas pessoas que ganharam cem mil, gastam muito mais do que ganhou, e fica a seguinte reflexão: do que valeu ganhar, sendo que o gasto foi maior?
Também existem aqueles que ganham muita das vezes três mil reais e conseguem gastar dois mil e poupam o restante de seu dinheiro, sabendo conservar e investir… dentro da visão yorùbá, essa pessoa que ganhou três mil e gastou menos e conseguiu economizar, ela é dona da sua sorte, ela tem prosperidade, notavelmente possa ser que há a presença de Ajé. Em contrapartida, aquela pessoa que gasta muito mais do que ganha, não é dona da boa sorte, e sim, é escrava da sua “sorte”, precisando estar constantemente arranjando alternativas para que o dinheiro entre, mas mesmo assim ele não rende e apenas diminui, e neste caso, se a pessoa for da religião ou se interessa por ela, é viável que busque ajuda de um sacerdote que confie para poder lidar com este desalinhamento e apurar as raízes do problema.
Uma das funções principais de Ajé, é poder revelar para o ser humano: qual é o seu potencial? Você irá prosperar mais trabalhando para alguém ou sendo autônomo? Trabalhando com os outros ou eles trabalhando por você?… são fatores em que Ajé usa a criatividade e o consciente do ser humano para ensiná-los ou fazê-los refletirem sobre o que é melhor para o seu progresso. Porque na realidade se uma pessoa abre uma empresa de supermercados e teve sucesso na vida, não significa que todos que irão fazer a mesma coisa obterá os mesmos resultados, isso é fato! Porque não tem ligação apenas com o conhecimento e a técnica, também há a presença da sorte nos acontecimentos e se ela não for muito bem trabalhada, possa ser que ela não te corresponda de forma positiva.
Os yorùbás pedem para Ajé clareza nas escolhas, porque se eles entendem, o que é realmente próspero para o caminho deles, ou, qual seria sua predestinação no ramo profissional escolhido, é perceptível que conseguirão poupar tempo e investir o restante no seu bem-estar e em outras atividades.
Ajé nos ajuda a trabalhar de uma forma conectada com o nosso caminho e sorte, para obtermos o progresso. Ajé, é um Òrìṣà benevolente e favorável ao desenvolvimento humano.

Ìtàn (História)
Conta que Ajé era muito próspera no Ọ̀run (mundo espiritual), mas um certo dia ela foi perguntar para Olódùmarè se no Àiyé (Terra) ela seria tão próspera quanto é no Ọ̀run, em seguida, Olódùmarè perguntou se Ajé aguentaria a pressão no Àiyé, e a mesma aceitou o desafio.
Foi solicitado que Ajé fizesse ẹbọ, e quando ela chegou na Terra, Olódùmarè transformou Ajé em conchas e jogou o mar sobre sua cabeça.
Ajé ficou com a pressão do mar em sua cabeça, mas no fundo do oceano ela reinou.
Este ìtàn nos mostra que a prosperidade também carrega responsabilidades, pra que você não pise na cabeça das pessoas, mas que utilize isso de forma consciente.
Um grande erro
Muitas pessoas acham que Ajé, é pegar monte de conchas e deixar em uma vasilha dentro de casa, como se fosse uma simpatia e na realidade Ajé não é isso. Primeiramente, o processo para assentamento de Ajé, assim como qualquer outro Òrìṣà não pode ser feito por mera curiosidades, é necessário um sacerdote do Culto para fazer, e não de forma aleatória. E por segundo, há aqueles que embora não cultue este Òrìṣà, acabam se aproximando dela por conta de seu caráter nas relações comerciais, como: agir com honestidade, bondade, valorizando sua sorte e a do outro, isso são formas de despertar Ajé em nossas vidas, porque Ajé é a prosperidade, e isso depende muito mais do que simples imagens ou amontoados de conchas, porque é necessário saber trabalhar esta energia em um assentamento e também através do dia-a-dia.
Um exemplo emblemático
Quando alguém cobra um certo preço que não gostamos, e mesmo assim, acabamos pagando, só que com uma total má vontade, acabamos negativando aquela relação comercial, além de ofender a sorte do outro que trabalhou naquele serviço, acabamos ofendendo Ajé.
Pois ela é um Òrìṣà que favorece o uso sábio do dinheiro e protege as pessoas de receberem “mau dinheiro”, advindo de pagamentos realizados de má vontade ou com raiva.
Por isso, quando pagamos alguém devemos ser positivos para que possamos também prosperar, particularmente, quando estou pagando alguém, por exemplo, para consertar o meu computador, eu não devo sentir raiva de pagar para quem consertou, porque agora estarei com um dos meus materiais de trabalho melhor para executar os meus serviços, ou seja, eu não vou me lamentar pelo dinheiro, se eu estou pagando é para ter a solução de um problema. Quando agimos com consciência e compramos uma cama boa, um carro ou algo para o nosso conforto, não se deve fazer resmungando pelo valor gasto, você deve imaginar que através daquilo lhe trará boas coisas, pense no retorno positivo daquele ato, isso eu chamo de “consciência próspera” e é um dos fatores que fará a sua sorte crescer.
A PRINCIPAL REPRESENTAÇÃO

Muitos acham que é o mar, porém na realidade é as conchas, inclusive, uma delas é o búzio tigre, que em yorùbá se chama “Ajé”, sendo a principal representação material deste Òrìṣà.
Ajé pode ser traduzida como progresso para você, sucesso para você e que aquilo que você espera de seu trabalho se concretize. Ajé é uma Òrìṣà paciente, fértil, longeva, sábia, harmoniosa, generosa, tolerante, justa e protetora da riqueza do homem (em todos os sentidos), atraindo dinheiro para quem a cultua. Protetora do progresso, defende as pessoas da inveja e de forças invisíveis que impeçam seu desenvolvimento econômico.
Ajé não é ruim, assim como o dinheiro não é mal, a questão é saber lidar com estas energias.
CANTIGA
Ajé ó momo je ń jèrè
Ajé ó momo je ń jèrè
Ajé ni sokun Ajé ni sode
Ajé ni sokun Ajé ni sode
Ajé ó momo je ń jèrè
Ajé ó momo je ń jèrè
Ajé ni sokun Ajé ni sode
Ajé ni sokun Ajé ni sode
Ajé ó momo je ń jèrè
Ajé ó momo je ń jèrè
COMIDAS RITUALÍSTICAS
Além do abate religioso, muitos praticantes preparam certas oferendas de comidas para Ajé.
Arroz cru com mel: Uma oferta comum e tradicional, que pode ser enfeitada com conchas marinhas.
Ekuru funfun (feijão branco): Um prato a base de feijão branco.
No Candomblé, muitos costumam ofertar, arroz cozido com obi branco e rosa branca: Cozinhe o arroz, escorra a água e coe. Adicione a água macerada de uma rosa branca e obí banjá branco ralado.
REFERÊNCIAS
- Castro, Yeda Pessoa de (2001). Falares africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras. p. 145; 147
- ↑ «Orixás / AJÊ SALUGÁ». PALÁCIO MAMÃE OXUM. Consultado em 8 de julho de 2015
- SÀLÁMÌ, Síkíru. Exu e a Ordem do Universo. 2. São Paulo. Oduduwa, 2015




