terça-feira, julho 23, 2024
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Aprenda com o Odù Ogbè-Ògúndá

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Na cultura de Ifá, a sabedoria dos povos yorùbás é riquíssima. Encontramos em diversos Odù vários versos e histórias que nos ensina diversas reflexões valiosas.

Para cada Odù há diversas histórias diferentes, algumas chegam a ser tão ricas que se torna tão oportunos seus ensinamentos para pessoas regidas até mesmo por energias diferentes.

• INTRODUÇÃO

Antes de darmos início ao estudo da liturgia sagrada de Ifá, preciso esclarecer alguns pontos importantes;

1. Na Religião Tradicional Yorùbá há a crença nos Òrìṣà, que são seres divinizados e alguns deles encarnaram em nosso planeta para ajudar na evolução das civilizações e administração da Terra. Mesmo após a partida para o Òrun (mundo espiritual, similar ao conceito de Olimpo da Cultura Grega, onde vive seres espirituais), eles ainda continuam com a sua presença através de diversos lugares da natureza e podem ser invocados.

2. Os animais não morrem para os yorùbás, há diversos versos de Ifá que revela a existência de vida de animais em outros mundos, inclusive como auxiliares de alguns Òrìṣà. Por isto que muitas mensagens e manifestações dos Òrìṣà podem ocorrer com sinais vindas de animais. Um exemplo emblemático é quem passa por Ẹbọ e acaba sonhando que viu um elefante, ou um búfalo, entre outros animais que tem significados muito importantes ligados à diversas energias e situações vivenciadas no espiritual e material.

3. Da mesma maneira como os cristões possuem suas bíblias, os mulçumanos tem seu alcorão e os judeus a sua torá, os religiosos yorùbás possuem seu corpo literário e que muita das vezes é transmitido via oral dentro do que denominamos tradição familiar.
Os budistas meditam através de parábolas e histórias que trazem reflexões, a mesma coisa são os gregos quando olham para sua mitologia, e na religião de Ifá temos muitos Ìtan (palavra que traz o significado de relato mítico, história ou fábula) e nesta matéria veremos uma delas que confesso que é uma das que eu mais gosto de contar porque serve para regentes de quaisquer Odù.

• VAMOS A HISTÓRIA!

Um certo dia, Ọ̀rúnmìlà estava passando por sérias dificuldades no Àiyé (Terra), também conhecido como ‘mundo visível ou material’ e ao mesmo tempo em um outro universo, no Òrun (céu) havia uma ave chamada Igun (Arbutre) estava passando por vários problemas.

Como Ọ̀rúnmìlà era um sacerdote muito sábio, resolveu não se desesperar e buscou seu oráculo para consultar o espiritual e Ifá orientou que ele deveria fazer um Ẹbọ, mas aquele ritual não poderia ser em apenas um único dia (tudo muito rápido), ele teria que fazer o trabalho durante cinco dias e nestes dias deveria permanecer totalmente de preceito religioso.

A cada dia, Ọ̀rúnmìlà precisava ir até a encruzilhada (Ìkòríta mẹ́ta em yorùbá) e entregar o Ẹbọ, uma oferenda que era direcionada aos ancestrais da Terra.

Era bastante cansativo toda ritualística, pois ele precisou dedicar vários dias, mas Ọ̀rúnmìlà tinha muita paciência e não pensou duas vezes, se dispôs a se sacrificar oferecendo sua fé e esforço para buscar uma possibilidade de melhoria.
Ao mesmo tempo, no Òrun, Olódùmarè (Deus) estava preocupado com um de seus filhos, o pássaro Igun, que estava doente, com problemas nas patas, nas asas, bicos, enfim, ele tinha cinco problemas. E Olódùmarè foi orientado a enviar o seu filho para Terra, porque a sua sabedoria afirmou que chegando na Terra ele encontraria uma solução para o seu problema.
Igun seguindo as ordens de seu pai veio para Terra, porém como ele estava cheio de problemas e sem muitas forças, não conseguiu vir voando e em um de seus momentos ele perdeu controle e veio caindo, ficando exatamente numa encruzilhada e como estava tão fraco, ficou parado nela.

E no primeiro dia do ritual Ọ̀rúnmìlà foi até a encruzilhada levar sua oferenda, prestou suas reverências e disse em voz alta “que toda boa sorte possa chegar em minha vida”, após a entrega, ele foi embora para sua casa. Igun estava escondido e viu tudo que Ọ̀rúnmìlà fez, chegou tão próximo daquela comida e sentiu tanta fome que resolveu comer tudo, passando algumas horas, Igun tinha ficado curado nas suas patas.

No segundo dia, Igun não tinha dúvida, já havia percebido que naquela comida que era deixava na encruzilhada tinha um enorme poder e dedicação, compreendendo que aquela força era capaz de curar qualquer um dos males. Igun ficou escondido e viu que Ọ̀rúnmìlà estava vindo.
Ọ̀rúnmìlà chegou no local, fez a sua entrega fazendo o mesmo pedido e foi embora.
Igun novamente, comeu a comida e de imediato curou suas asas.

No terceiro dia, Ọ̀rúnmìlà que não tinha consciência de nada que estava acontecendo quando ele ia para casa, foi no mesmo local e entregou sua oferenda expressando as seguintes palavras “que toda boa sorte venha para mim”.
Igun continuou observando, ouvindo tudo e quando Ọ̀rúnmìlà foi embora, Igun novamente comeu a oferenda que estava na encruzilhada.
Aquilo foi tão bom que curou mais uma vez uma parte do corpo daquele pássaro.

No quarto e no quinto dia, aconteceu exatamente a mesma coisa, e Igun conseguiu curar as cinco partes de seu corpo que estava com problemas e resolveu ir de imediato, voando, de volta para o céu.

Quando Igun chegou no Òrun, Olódùmarè perguntou ao seu filho o que havia acontecido, pois o pássaro saiu doente e voltou totalmente curado.
Igun relatou que havia um homem de muita sabedoria, humilde, bondoso, que se chamava Ọ̀rúnmìlà pelo o que ele pode perceber estava passando por problemas também, mas todo dia ele ia na encruzilhada e me dava comida, sem saber que eu estava naquele local e sempre dizia “que toda minha sorte chegue até minha vida”, eram expressões sinceras e tão simples, mas que a cada vez que eu comi, uma parte do meu corpo se curava, explicou Igun.

Olódùmarè ficou tão feliz com aquelas verdades ditas por Igun que orientou que deveria em agradecimento, ser enviado para casa de Ọ̀rúnmìlà, os quatro àdò (quatro cabaças com as quatro sortes que existem), Igun expressou que estava de acordo e achava muito justo.

Quando as quatro sortes chegaram a casa de Ọ̀rúnmìlà, ele sentiu aquela presença forte. Èṣù se manifestou como mensageiro e disse:
“Ọ̀rúnmìlà dentro de cada uma destas cabaças se encontram um tipo de sorte, porém você precisa escolher apenas uma, recomendo que você escolha a que melhor for atender as suas necessidades”. Ọ̀rúnmìlà como era muito voltado a família, pediu conselhos de seus filhos e os mesmos aconselharam Ọ̀rúnmìlà escolher a cabaça da longevidade.
Ọ̀rúnmìlà ficou atentado a escolher a cabaça da longevidade e Èṣù como sempre foi um grande amigo, disse para Ọ̀rúnmìlà não escutar seus filhos, pois “eles gostariam que você vivesse muito, porque quanto mais tempo você viver, mais tempo eles viverão dependendo de você e não querendo trabalhar”, disse Èṣù.

As esposas de Ọ̀rúnmìlà ouviram tudo e disse que era melhor para Ọ̀rúnmìlà, escolher a cabaça da prosperidade.
Èṣù mais uma vez ficou informado e disse para Ọ̀rúnmìlà não escolher a cabaça da prosperidade, pois “as suas esposas querem que você escolha a cabaça da prosperidade, para quando você ficar velho, elas apenas fiquem com todos os seus bens”, disse Èṣù.

Ọ̀rúnmìlà estava confuso e não sabia o que fazer, lembrou que Èṣù apoia aqueles que fazem Ẹbọ e resolveu pedir sua opinião. Èṣù sorriu, e disse que Ọ̀rúnmìlà deveria escolher a cabaça da paciência.
Ọ̀rúnmìlà que sempre foi um Òrìṣà de muita sabedoria, não pensou mais e resolveu seguir os conselhos de Èṣù.

Os filhos e esposas de Ọ̀rúnmìlà ficaram extremamente irritados e disse que era uma péssima escolha “o que nós ganharemos com a paciência? Isto não adianta em nada!”, mesmo assim, Ọ̀rúnmìlà não voltou atrás e ficou bem feliz em escolher a cabaça da paciência.

Todas as outras sortes contidas nas outras cabaças resolveram ir embora, começando a voltar para o Òrun. Porém no meio do caminho a Longevidade perguntou para Prosperidade onde estava a cabaça da paciência, e a Prosperidade afirmou que se encontrava na casa de Ọ̀rúnmìlà e que foi aquela que ele havia escolhido.
A Longevidade disse que não poderia voltar para o Òrun e que era de seu dever estar ao lado da Paciência, pois quem tem Paciência, acaba tendo Longevidade.
A Prosperidade também exclamou “onde tem Paciência, é onde deve existir Prosperidade, devo voltar para ficar junto da Paciência”.

E a terceira cabaça que era a Sorte, também resolveu voltar, pois onde tem Paciência, tem a boa Sorte.

Desta forma as três cabaças regressaram para a casa de Ọ̀rúnmìlà e foram ao encontro da Paciência.
Ọ̀rúnmìlà que havia escolhido a Paciência, acabou ficando com mais três: A Sorte, Prosperidade e a Longevidade.

• LEVANDO PARA NOSSA REALIDADE

Podemos perceber que em nosso planeta há muitas coisas boas, mas que antes de qualquer grande conquista, é necessário a compreensão que nem tudo acontece no nosso tempo e que há coisas que não podem ser acalçadas em segundos, existe certos resultados que devem existir no momento certo e que devemos estar aptos de forma paciente para recebê-los.

Existe um provérbio yorùbá: “A paciência é o pai do comportamento“.

Não adianta praticar, se não buscar se tornar uma pessoa paciente. Eu vejo com uma certa constância algumas pessoas que acham que a Espiritualidade somente existe para satisfazê-las e agem como se tivessem domínio do tempo, porém fracassam quando se deparam com a realidade de que certas coisas não acontece exatamente no nosso tempo.

Alguns praticam belos atos, mas por falta de paciência se corrompem, praticando outras coisas que levarão ao regresso. O paciente busca estar receptivo para que a boa sorte possa chegar, entre outras coisas, mas o impaciente se fecha com facilidade e quando as coisas boas poderiam chegar, ele já não se encontra mais receptivo para recebimento daquilo que estava buscando.

Eu procuro ensinar diariamente aos meus aprendizes de que é necessário estar paciente para não perder as oportunidades que virão, pois a boa positividade chega na casa de quem cultiva a paciência.

Desejo profundamente que os leitores deste conteúdo possam refletir sobre suas vidas, analisando se realmente estão aptos para aquilo que julgam-se dignos de tamanha benevolência espiritual, e se este bom comportamento e paciência apenas existe quando estamos ganhando ou também quando estamos em momento de dificuldades e precisamos ter a fé que coisas boas chegará.

Autor: Awo Ifá Leké – Eduardo Henrique Costa.
Professor de Religião & Cultura.
Fundador do Universo e Cultura.

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