terça-feira, julho 23, 2024
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Como descobrir o Òrìṣà ligado a minha cabeça

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Este é um dos temas que eu considero algo simples de responder, porém o que percebo é que muitas pessoas que se consideram ‘especialistas’ no assunto e muita das vezes nem são iniciadas na religião, trazem indicações ruins para o leigo ou quem está começando a aprender sobre Òrìṣà.

• Texto – Awo Ifá Leké Eduardo Henrique

É natural quando alguém começa aprender ou quer fazer parte da tradição de culto a Òrìṣà se perguntar em algum momento da vida: qual é o Òrìṣà que sou filha/filho?. Mas antes de responder esta pergunta é necessário esclarecer o que significa ser filho de um Òrìṣà.

Na Religião Yorùbá ao pensar em Òrìṣà lembramos de família, na África a divindade o qual pertencemos costuma ser a mesma do pai ou da mãe, porque o Òrìṣà está ligado a nossa genética e ancestralidade familiar, nas minhas primeiras aprendizagens quando eu ainda era uma criança, aprendi que o ser espiritual que nos pertence ele sempre será ligado a nossa ancestralidade e não a do outro. Não existe esta idéia de trocar de Òrìṣà ou o de outra pessoa passar a ser seu, é algo muito individual e ao mesmo tempo ligado a família.
 Todos nós nascemos possuindo uma partícula divina em nosso Ori (cabeça) que está ligada à uma divindade, isto faz com que tenhamos ligação com alguma delas e o fato da nossa energia ter uma identidade com aquele Òrìṣà, faz com que sejamos filhos da divindade.
Na África é comum que cada um seja filho de uma divindade. No Brasil com o surgimento do Candomblé e esta tentativa de recriação de culto num período de escravidão, muitos costumes e ritos se perderam e por isso são diferentes as formas de culto do que na África. Nas religiões afro-brasileiras segue o ensinamento de que cada pessoa é filho de um casal de divindade, um representando o masculino e o outro feminino. Para os Yorùbás a cabeça nossa tem energia pertencente a uma única divindade que somos filhos e não são várias.

O Culto ao Òrìṣà de cabeça existe para que possamos ativar esta energia que já existe dentro de nós mesmos e que possamos permitir que o nosso elo de ligação com aquele Òrìṣà possa ser maior. A divindade o qual pertencemos só consegue fazer mudanças profundas em nossa vida, após o nosso Ori (cabeça) reconhecer de quem somos filhos para que isto não fique adormecido.
É comum um ditado nas sociedades de transe de Òrìṣà de que o transe de divindade é algo que se manifesta de dentro para fora, e isto acontece devido ser uma energia que já se encontra conosco desde que nascemos e ficará até a nossa partida para uma nova mudança de posição espiritual (desencarnar).

Quando descobrimos quem é o nosso Òrìṣà podemos encontrar algumas questões na personalidade que são ligadas aquela energia. E não é sempre que todo filho de um Òrìṣà em específico será igual a maioria porque tudo depende do Ori de cada indivíduo e seu processo de evolução espiritual. Um sacerdote que olha para aparência da pessoa e com base em suas experiências afirma qual é o Òrìṣà, não age de forma tradicional e pode muita das vezes fracassar, eu sei que muitos não vão gostar da minha afirmação mas estou aqui para ensinar tradição e não moda de redes sociais, estes sites que alegam descobrir seu Òrìṣà com base no seu jeito de ser, é uma informação muito falaciosa. Assim como aqueles que dizem que com base na sua data de nascimento ou signo zodíaco (grego) é possível descobrir seus Òrìṣà é outra forma totalmente errada e que ao meu ver chega ser muito desrespeitosa, pois a cultura africana possui suas riquezas e seus próprios signos, não precisando olhar para cultura da Grécia para descobrir uma divindade yorùbá (africana), o que não tem o menor cabimento, o esoterismo não é aplicável no culto a Òrìṣà.

Olhar para o histórico familiar, comportamentos e aparências, podem até dar vestígios, mas não podemos nos basear nisto como apuração, não existe uma boa apuração baseada em achismos, o conhecimento religioso depende da afirmativa do espiritual.

Para descobrir o Òrìṣà do Ori de alguém, é necessário se tornar um copo vazio e nunca transbordando, saber olhar para espiritualidade e deixar que a resposta venha na consulta. Estes métodos de somar datas de nascimentos, olhar horóscopo, arquétipos e se basear neles para descobrir Òrìṣà, faz com que o Ori da pessoa fique invocando para si, um Òrìṣà que as vezes nem pertence ou tem ligação.

A FORMA CORRETA

Para descobrir o Òrìṣà é através de consulta oracular, onde o sacerdote ou sacerdotisa irá apurar em qual caminho vem a sua divindade e qual seria o nome dela. Pode ser um Òrìṣà que representa a energia feminina ou masculina, independente da opção sexual de cada um.

A melhor certeza que se pode ter é no ato da iniciação religiosa, mas antes disto as vezes é possível que o Òrìṣà se manifeste no oráculo e confirme. Internamente o nosso centro cultural adota o método de procurar analisar somente após ebós e de preferência ao ato de apuração presencialmente, encostando o oráculo na cabeça da pessoa e é um tipo de jogo que não é resumido em uma única vez, depois de um tempo é jogado novamente para ver se mantêm o mesmo posicionamento. Pois as energias regentes do momento sempre mudarão, mas o nosso Òrìṣà de cabeça sempre será o mesmo.

Descobrir de qual Òrìṣà somos filhos somente é importante para quem pertence a religião e passa por iniciação religiosa, pois se tratando de clientes que buscam a religião apenas quando precisa de conselhos através de oráculos, cuidados espirituais ou para resolver um problema, não faz a menor diferença saber de qual divindade a pessoa é filha(o).

Há muitos brasileiros que são sacerdotes e ensinam de um jeito que coloca medo nas pessoas, dizendo que se elas se iniciarem para o Òrìṣà errado ou cultuar um Òrìṣà diferente acontecerá sérios problemas. E para os povos yorùbás isto é inadmissível, pois o Òrìṣà é a força da vida e todos eles nos trazem virtudes, a divindade não se comporta como um ser humano tóxico ou obsessivo, ou ciumento. Não existe um Òrìṣà errado, o que existe é pessoas mau caráter que fazem coisas erradas e camuflam, se prevalecendo da afirmação que foi porquê aquele não era o Òrìṣà da pessoa.

Durante anos da minha vida frequentando diversos terreiros, foram mais de seis anos que eu cultuava semprem Ọ̀ṣọ́ọ̀sì, pois eu achava realmente que eu era filho deste Òrìṣà e até muitos a julgar pela aparência dizia que eu tinha a aparência igualzinha dos filhos de Ọ̀ṣọ́ọ̀sì. Me sentia muito bem, aumentava sempre minha prosperidade, nunca adoeci por conta disto ou sofri com uma maldição, quando me iniciei em Ifá, fiquei em choque que eu não era filho de Ọ̀ṣọ́ọ̀sì e no Candomblé em diversas nações diferentes eu cultuava ele e chamava de “meu pai”. Ao ter consciência de qual Òrìṣà eu sou filho, me senti muito bem, esvaziei o copo e estive totalmente aberto as novidades vindas do espiritual, minha vida progrediu e muitas coisas boas aconteceram. Aprendi que alguém não pode ser castigado pelo o que não conhece e não tem culpa, Olódùmarè criou um gigantesco panteão de divindades para serem cultuadas. O que pode acontecer é de invocarmos uma energia que não nos pertence, receber mesmo assim ajuda, porém de forma momentânea, pois não faz parte de nossos caminhos ou pertence a nossa ancestralidade.

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