terça-feira, julho 23, 2024
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Ẹbọ × Gratuidade

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Há muitas dúvidas a respeito do ẹbọ em muitos locais de culto a Ifá, Isese Lagba ou Candomblé costuma em sua maioria estes tipos de serviços religiosos serem pagos e nesta maravilhosa oportunidade de esclarecimento, eu quero compartilhar com você um pouco a cerca do assunto para que entenda.

• Awo Ifá Leké – Eduardo Henrique

Primeiramente nestas três religiões que eu citei, há a necessidade de iniciação religiosa, onde o praticante deverá passar por um ritual religioso e diversos caminhos e obrigações até atingir o sacerdócio, o que leva muita das vezes anos, muita dedicação e principalmente gastos, precisamos entender que por ser tratar de religiões de matrizes africanas em continente americano, acaba dependendo de importações de produtos de artigos religiosos ou indo até a África o que nem todos têm esta condição.

Para um praticante conseguir dar ẹbọ em outras pessoas, necessitará de assentamentos específicos que serão suportes para estas práticas, colocando muita das vezes até mesmo os trabalhos de frente para estes assentamentos.
Os assentamentos são um ponto da força ancestral de cada Òrìṣà, elementos de ligação com aquela energia e onde precisa ser alimentada esta ponte, quando um indivíduo começa a dar ẹbọ, o mesmo necessitará alimentar aquela energia e estar com suas obrigações em dia.

Cada pessoa que cuida religiosamente dos outros, precisa estar bem, com bastante àṣẹ, pois a cada magia há um certo desgaste e a pessoa que não se cuida acaba não tendo nada de vibrações boas ou algo de bom para proporcionar ao outro espiritualmente, os praticantes precisam fazer manutenções de suas energias com frequência, sempre ir se limpando de fluídos negativos, ganhando mais força para levar a força ao outro, e tudo isto muita das vezes envolve gastar com materiais para poder se cuidar e muitas pessoas acham que quem cuida dos outros não precisa de cuidados, mas esta forma de pensar é absolutamente um erro, porque vivemos em comunidade segundo os yorùbás e é sempre um cuidando do outro.

Quando alguém necessita passar por obrigações religiosas é porque todos necessitam de àṣẹ para exercer funções, principalmente as religiosas.

Quando um sacerdote realiza um ẹbọ para o seu consulente de forma gratuita, na realidade haverá gratuidade apenas para o consulente mas quem terá que pagar é o próprio sacerdote, porque depois disto ele precisará gastar para poder se cuidar, comprar materiais, cuidar de seus assentamentos e principalmente cuidar de seu templo religioso, acredito que há muitas formas de fazer caridade nas religiões de matrizes africanas, inclusive usando medicina religiosa yorùbá, mas ẹbọ para ser realizado sem o consulente pagar, é apenas para aqueles sacerdotes que resolvem gastar no lugar dos consulentes.

Vejamos um exemplo:

Quando é realizado um ẹbọ com diversos alimentos que serão passados na pessoa, antes de realizar o sacerdote precisa estar limpo de negatividades e estar forte para poder cuidar do outro, então ele gasta com seu cuidado individual, e precisará arrumar os alimentos e todos os itens de artigos religiosos para cuidar daquela pessoa.
Após comprar tudo aquilo, ainda terá que preparar, no caso de ajeum (comidas) o mesmo gastará com energia elétrica e com gás de cozinha (se for usar fogão) e são coisas que no Brasil e em diversos países em 2024 não é nenhum pouco de preço baixo.

Existe alguns ẹbọ que necessita serem despachados em um outro local, como muita das vezes os alimentos na natureza para a Terra se alimentar (por exemplo) e imagine se for muitas coisas que não dê para levar andando, este sacerdote terá que gastar com condução, por ser algo que envolve despachos de energias a maioria prefere optar na utilização de veículos particulares de aplicativos e isto há um custo, e mesmo que fossem utilizar seus veículos pessoais ainda teriam que gastar com combustíveis.

Na volta para seu templo religioso, este mesmo sacerdote precisa repor a energia que gastou para executar tudo aquilo, porque muita das vezes a pessoa estava carregada demais e ainda precisa cuidar do local onde realiza seus ritos, muitos ẹbọ após o término precisa o local do templo religioso ser limpo e produtos de higiene precisam ser comprados.

E no caso da compra de artigos religiosos a maioria dos comerciantes cobram porque eles trabalham com vendas e se tudo desse de forma gratuita teriam que decretar a falência de suas lojas, e nas religiões africanas praticadas fora do local onde é terra daquela cultura, acaba sendo um pouco dificultoso comprar certos materiais e acabam precisando vir de fora do país, e isto de fato, envolve custos.

E se um sacerdote não for alguém repleto de patrocinadores que pague tudo por ele, nestas gratuidades feitas em ẹbọ com frequência, terá que infelizmente acabar fechando seu templo religioso por falta de condições financeiras estáveis. E alguns podem achar que o sacerdote é ganancioso pelo simples fato de cobrar, mas veja, será que é certo ele trabalhar para ficar pagando atos medicinais em prol de todos? E como ele gastará em prol dele e de sua vida?… Há alguns sacerdotes que não costumam ter outra profissão e se dedicam apenas a religião, e imagine chegar para o trabalho de alguém que vive profissionalmente daquilo para pedir gratuidade todas das vezes, é a mesma coisa do que chegar em um supermercado e você levar tudo que deseja para beneficiar você mesmo e na hora de pagar, chega até uma operadora de caixa de supermercado e afirma que não tem dinheiro e que rezará por ela e que Deus abençoará ela por isto, mas veja, por mais que ela deixe por ter um bom sentimento ela terá que pagar tudo aquilo e será o suor dela inteiramente em prol do que um outro alguém queria.

A palavra ẹbọ quando traz como significado “sacrifício” é no sentido da pessoa sacrificar em prol de si mesma, correr atrás, batalhar pelo o que quer, e não o outro se sacrificando pelo o outro e terminando prejudicado. A caridade é algo que não pode tornar o outro mais pobre. Em algumas famílias na África quando um membro não tem condições de pagar o sacerdote, alguns deixam aquela pessoa trabalhar naquele templo religioso para que ajude até pagar a dívida.
Em alguns outros lugares, como até mesmo no Brasil, alguns sacerdotes as vezes por amizade e carinho acabam gastando para ajudar aquela pessoa e deixando para o outro pagar apenas quando a vida melhorar e estiver em condições mais estáveis e por mais que o poder da fé é algo grandioso e maravilhoso, não depende apenas do sacerdote confiar no espiritual e acreditar na prosperidade, mas se o consulente se corromper ou praticar atos destrutivos, esta prosperidade continuará não chegando e por isto considero uma atitude arriscada, para fazer isto recomendo refletir “isto vai me trazer algum prejuízo que eu não possa contornar no atual momento caso a pessoa não me pague?”, Caso seja sim, é melhor evitar por precaução.

Mas e por quê muitos sacerdotes não permitem fazer ẹbọ na pessoa para pagar depois? Porque quando não há uma condição de dinheiro adicional somente em prol disto, é difícil. Porque aquele sacerdote pode fazer fiado, mas o vendedor de artigos religiosos, o supermercado, o motorista ou o posto de combustível, enfim, estes dificilmente farão fiado e o sacerdote terá que pagar.

E existe ẹbọ de caridade ou misericórdia? Existe sim, geralmente os sacerdotes fazem com algo que sobrou de outros trabalhos que fez ou do que comprou para seu templo religioso e tenha numa quantidade possível de dizimar sem que isto lhe faça falta, mas a maioria costuma utilizar materiais de baixo custo ou usam alternativas que mesmo que não resolva tudo, pelo menos traga um alívio ou melhoria temporária até que chegue a solução por completo.

E o que muitos não sabe é que a quantidade de itens ou energias e atos para cada ẹbọ, costuma vir da própria pessoa que passará pelo ato, pois tem diferenciação entre alguém com muitos problemas e outro fazendo apenas por devoção e etc.

E o que é a tal mão de àṣẹ que alguns sacerdotes cobram?
Seria exatamente o esforço feito, tempo dedicado, e a manutenção necessária a ser feita. Pois caso o sacerdote cobre apenas pelos materiais, não haverá recursos para cuidar dele mesmo, e dos assentamentos e templo religioso, vejamos:
Se em cada ẹbọ que envolvessem apenas alimentos, o sacerdote cobrasse apenas pelos ingredientes para prepará-los, o gás de cozinha será pago como?…

O que quero deixar claro com esta explicação é que não são as crenças que obrigam, são as necessidades para viver a vida que tudo tem seus custos no mundo material, até mesmo para o consumo de água potável precisa pagar, por isto é super normal existir práticas que são cobradas.

Mas não descarto a possibilidade de existir aproveitadores em quaisquer religiões, pessoas que cobram muito além do que necessitam e tiram diversas vantagens através dos outros, é necessário uma reflexão na hora da escolha, pois nem todas pessoas podem ter um bom caráter.

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