terça-feira, julho 16, 2024
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MEDICINA TRADICIONAL YORÙBÁ

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Em diversas partes do mundo é notável a presença de curandeiros no qual usam métodos adquiridos através da religião que fazem parte, para tratar problemas da alma e do corpo. Na Religião Yorùbá é muito forte a presença do sacerdote conhecido como ‘Bàbáláwo’ (pai do segredo), seu objetivo principal além do culto aos deuses, é poder diagnosticar o problema que a pessoa vem sofrendo e com base em seus conhecimentos e apuração oracular, fazer o uso da medicina tradicional religiosa.
No Brasil quando pensamos em medicina religiosa africana, encontramos os ebós e iniciações, que são as formas de curar o espírito e o corpo trazendo uma nova reconstituição da alma, eliminando algumas más sortes e problemas. As práticas de cura na religião vai muito além do que muitos imaginam, envolve diversas especialidades e métodos, dependendo da família que o indivíduo possui poderá passar por caminho diferente, há algumas que são muito mais focadas em uso das ervas e outras no uso de pós, tudo dependerá da experiência iniciática (trajetória).
O Bàbáláwo poderá preparar pós de comer ou passar em um local específico, pomadas, sabões, chás, banhos mágicos, amuletos e muito mais. Há muitos relatos de pessoas que sofriam de problemas que a medicina terrena tratava apenas com remédios e não resolviam, mas quando conheceram as práticas de curas religiosas acabou fazendo uma doença que não tinha cura aos olhos da ciência, uma cura inesperada. Isto acontece devido ao fato de que alguns males que atinge a matéria humana podem está associados com a espiritualidade.

Existe casos em que um problema espiritual por muito tempo vivenciado, poderá passar a ser carnal causando males no corpo físico ou estado mental, nestes casos o indivíduo poderá contar com a ajuda da ciência e juntamente com a religião. O fato de alguém buscar a medicina do Homem e se cuidar religiosamente, não significa nenhum tipo de fé diminuída.

Assentamento de Obàluwàiyé do Bàbáláwo Ifa Olaifa – Alberto Junior.

MITOLOGIA E A MEDICINA DIVINA

No Ọdù Ògúnda Meji, conta que após Olódùmarè ter criado os Òrìṣà masculinos e femininos, era agora necessário que gerassem descendentes.
 Sabendo que Ọ̀rúnmìlà tinha feito oferendas à Àiyé e que já era capaz de concebê-los, foram imediatamente procurar o Grande Adivinho e testemunha da criação para que consultasse Ifá e fizesse encantamentos para este fim. Apenas Ikú e sua consorte Arun, que ainda estavam indispostos com Ọ̀rúnmìlá, porque dificultava tudo para Eles no Òrún (céu), não compareceram. Um dia, por escolha própria, Arun foi até Ọ̀rúnmìlá, pois Ela tinha um grande desejo de ser mãe. O Grande Adivinho fez o ebó e garantiu que ela engravidaria. Arun teve quatro filhos: a apreensão, a loucura, a infecção e a deformidade.
  Desses descendentes nasceram 603 netos e bisnetos, todos eles inofensivos no Òrún. Um dia em que todos estavam descendo ao ÀIyé, Èṣù, obedecendo a ordem de Olódùmarè, trouxe à terra todos os filhos de Ikú e Arun dentro de um enorme búfalo.
Aqui no Àyié havia um caçador chamado Atapá Olorí Odé que era muito ambicioso. Um dia, quando foi consultar Ifá, foi alertado por Ọ̀rúnmìlà para ser prevenido e não ser avarento caso contrário poderia ser vítima, junto com a humanidade, de muitos males.
 Ọ̀rúnmìlá fez o ebó indicado pelo Odù e Atapá Olorí Odé em seguida começou a caçar com fartura todos os tipos de animais.
 Um dia o caçador encontrou, pastando, o grande animal que Èṣù havia trazido.
 Ao se preparar para lançar sua flecha o animal começou a falar e lhe disse “não me mates, o que desejas para não me matar?”.
O caçador respondeu que queria um palácio e muito dinheiro.
  O animal disse que ele poderia voltar para casa que veria que seus desejos estariam cumpridos. Quando chegou em casa encontrou tudo o que havia exigido do búfalo.
  Alguns dias depois, foi novamente ao encontro do animal para exigir mais dinheiro e poder. Tudo ocorreu como da primeira vez e outras vezes Atapá Olorí Odé repetiu o mesmo.
  Atapá Olorí Odé foi novamente procurar Ọ̀rúnmìlá para que consultasse Ifá e foi recomendado que parasse com suas exigências, pois já era um rei e tinha tudo que necessitava para viver sem temores. Após 21 dias, movido pela sua ambição, desobedeceu as recomendações de Ifá e foi procurar o búfalo e exigiu ser Dono da Terra (Babalúayé ou Obàluwàiyé).
  O animal lhe disse que isso estava fora de seu alcance e que esse poder somente Olódùmarè poderia lhe dar. Atapá Olorí Odé insistiu até que o búfalo lhe disse: pensando bem, lança tua flecha e mate-me, pois somente assim poderás ser Obàluwàiyé. O caçador lançou sua flecha e um grande estrondo foi ouvido em toda a Terra.
  Todos os filhos de Ikú e Arun tinham escapado do interior do animal e Atapá Olorí Odé foi o primeiro que fizeram adoecer gravemente.

  Todos os humanos e animais, sabedores  de que os descendentes de Ikú e Arun somente respeitavam a Ọ̀rúnmìlá, foram a Ele pedir auxílio contra as pragas. Ọ̀rúnmìlá determinou então que fossem aonde estava o que havia sobrado de Atapá Olorí Odé, que colocassem tudo dentro de um recipiente de barro e o tampassem deixando alguns orifícios na tampa.
  Deu ordens ainda que lhe construíssem um trono e fizessem ebós e o adorassem como Obàluwàiyé, o Ṣankpanà, pois havia sido o título a Ele conferido antes de morrer. No entanto, advertiu que mesmo assim as doenças infectariam a humanidade.

Foi então que Ọ̀rúnmìlá, por meio do Ọdù Obukó Ko Epon, foi procurar Òsonyìn, Òrìṣà da fauna e da flora, conhecedor dos Ofó, encantamentos, que davam a estes a força curativa e ajudariam a vencer, junto com Obàluwàiyé, as enfermidades. Nessa época ninguém podia se aproximar de Òsonyìn pois podia ser queimado pelo seu carvão em brasa.

  Ọ̀rúnmìlá apos consultar Ifá, colheu algumas plantas e as colocou em uma cubuca de barro. Em seguida foi procurá-lo. Quando o encontrou, Òsonyìn lançou o carvão em brasa sobre Ọ̀rúnmìlá, como fazia com todos que ousavam entrarem em seu reino, mas Ọ Grande Adivinho colocou a cumbuca com as folhas diante de si, o carvão caiu dentro e se apagou, ficando Òsonyìn sem defesa perante Ọ̀rúnmìlá.
  Em seguida, Òsonyìn fez um pacto com Ọ̀rúnmìlá e concordou em ajudá-lo em sua missão. A partir de então, para comemorar esse pacto, cada vez que se prepara um preparado de folhas deve ser colocado um carvão em brasa para confirmar seu àṣẹ̀.
  Òsonyìn passou a ser auxiliar de Ọ̀rúnmìlá, mas às vezes ousava não obedecer suas determinações. Foi por esta maneira que no Ọdù Irosun Oṣe, Ṣàngó ofertou uma candeia de barro a Ọ̀rúnmìlá com a qual deixou Òsonyìn deformado. Só desta maneira Òsonyìn concordou em obedecer as suas ordens e ficou estabelecido que Òsonyìn entregasse o àṣẹ̀ completo. Todos os preparados medicinais deveriam ser expostos ao calor ou ao fogo.
  Todas as doenças possuem um veneno, e todo veneno possui seu antídoto.
  O Ọdù Oyekun Nilogbe diz: o caçador abriu sua bolsa e retirou o veneno, Òsonyìn abriu e retirou a medicina, o antídoto. Toda doença possui a sua cura.
  Essa cura pode estar fundamentada no princípio da polaridade, como é o caso das vacinas e da medicina homeopática, em que do mesmo veneno se faz o remédio, o conhecimento que os Yorùbás têm há milênios. O Yorùbá crê que todos carregamos “saquinhos” pelo corpo onde estão os “venenos” das enfermidades e que, quando quebramos o equilíbrio de nossa organismo, seja pelo tipo de comportamento, pela má alimentação, pelo contato com outras pessoas ou qualquer outro ser vivo, esses saquinhos atingem seu limite e se rompem deixando extravasar seu conteúdo e por meio da corrente sanguínea se espalha pelo corpo e a doença se instala.

Um “médico do povo” na Nigérina. Fonte: Wikipédia.

   Neste ponto é que a medicina Yorùbá começa a atuar, quer fazendo com que o indivíduo volte a se harmonizar com o meio em que vive, podendo eliminar o excesso de veneno por vias naturais (fezes, urina e suor) para que, depois, o que sobrar desse veneno volte ao seu local de origem, nos “saquinhos”, e a pessoa se cure.
Para que a cura aconteça devem ser usadas substâncias amargas, koro, picantes, ta, e ácidas, kon.

  Essas substâncias podem ser inaladas, ingeridas ou aplicadas sobre o corpo, dependendo de cada caso, e reequilibrarão o doente, podendo também matar microorganismos diretamente ou fortalecer o sistema imunológico. Muitos dos preparados medicinais Yorùbá se utilizam do Obí e do Òrogbó, da pimenta (ataré), cebola, cravo e muitos outros atribuem força aos preparados.
  Para saber qual medicina preparar, antes de tudo é necessário consultar Ifá, pois é por meio dos Ọdù que se determina realmente a enfermidade instalada ou que vai se instalar, como curá-la ou como prevenir-se para não adoecer. Para isso são estabelecidos os eèwò, proibições, impedimentos, que devem ser cumpridos com extremo rigor, caso contrarário a doença poderá se instalar mais rapidamente, se agravar ou se instalar de forma mais virulenta e causar mais sofrimento, até mesmo levando à morte.
  Outra classificação utilizada, não só na medicina tradicional Yorùbá como também na magia, são três tipos de substâncias classificadas como sendo de “sangue branco” (por exemplo, ossos, manteigas vegetais, metais e pedras brancas), “sangue vermelho” (mel, sementes e metais amarelos)e “sangue preto” (cinzas de animais ou vegetais obtidos após sua queima e carvão mineral).

  Todo medicamento terá em sua formulação ao menos um elemento de cada um desses três tipos e terá sua energia vital curadora ativada através do Ofó (encantamento), que é recitado com rimas fonéticas semelhantes aos mantras indianos ou de tantas outras religiões. Essa rima fonética carrega o poder realizador, o àṣẹ̀, que é transmitido com o apoio da força mental do Babáláwó para ativar o preparado.
  Como um preparado pode ser benéfico para uma pessoa, mas causar mal a outra, ou até para não incorrer em erros de misturar substâncias antagônicas, nada deve ser feito sem prévia consulta a Ifá. Somente Babáláwò e Olúwo Òsonyìn, iniciados nos mistérios de Òsonyìn, conhecem os segredos dessas preparações.

 • Fonte consultada:
Adekunle, Otunba, Ifá Filosofia e Ciência de Vida. 1.ed. São Paulo, 2005.

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