Na terra yorùbá, é comum o uso de medicina religiosa para cura dos problemas de energias, principalmente quando começam a interferir na saúde, no lado profissional e amoroso…
Texto • Awo Ifá Leké – Eduardo Henrique
Quando alguém se encontra com problemas, na África, é muito comum consultar um bàbáláwo para verificar a raiz da situação e como poderá resolvê-la. Uma das medicinas bastante conhecida é o ẹbọ, um ritual que busca direcionar as energias do que está sendo encantado para a pessoa ou situação em específico, é o momento em que são invocados energias divinizadas para ajudar neste processo.
Mas o que poucos sabem é que o ẹbọ não se limita ao uso de animais ou culinária religiosa, vai muito além, dependendo do conhecimento do sacerdote, poderá ser usado outros tipos de ingredientes.
• Entenda o ẹbọ ewé
A palavra “ẹbọ” está associada com sacrifícios, porém, nem sempre será de animais, há sacrifícios através do reino vegetal, pois as plantas têm seu sangue e quando arrancamos algumas delas é muito comum a pronúncia “Àgò Òrìṣà Ewé”, onde buscamos pedir licença, em caráter de respeito as energias que regem aquela planta, pois tudo possui suas regências na natureza e devemos ter respeito ao retirar algo de algum lugar. Derramar sangue vegetal em vão não é bom, para os yorùbás até para retirar uma pedra da natureza devemos possuir respeito e um devido motivo significativo, caso contrário, devemos pedir “Dárijì mi”, o que significa: perdoe-me, desculpe-me. Afinal quando se trata das plantas, o sangue é vida, a natureza é sagrada, os rios têm nome de seres divinizados, nada nesta mundo se encontra desconectado com uma força espiritual.
O ẹbọ ewé, é um ritual feito com plantas e ervas para curas de males espirituais e de energias. O bàbáláwo costuma proceder o ẹbọ dentro de suas especialidades, de acordo com os cultos que ele possui iniciações, vivências e o que aprendeu com seus mestres. É por esta razão que quando vejo um sacerdote dizendo que não existe ẹbọ à distância, eu respeito, pois se aquele iniciado na religião não tiver aprendido maneiras de fazer, realmente será apenas possível de forma presencial. Porque até mesmo se o solicitante estará presente no local do ritual ou não, poderá mudar toda a forma de proceder.
É comum que um leigo possa pensar que apenas Ọ̀sányin tem ligação com ervas e plantas, mas a realidade é que cada Òrìṣà possui suas medicinas, suas próprias folhas e plantas, é por isso que sempre afirmo que nem toda folha é do domínio de Ọ̀sányin. Alguns erroneamente também acham que o ẹbọ ewé é simplesmente um banho de ervas, mas se apenas fosse isso, não haveria a necessidade do ritual ser feito por um sacerdote competente.
Sem sombras de dúvidas, é de extrema importância uma consulta oracular, após a apuração, o bàbáláwo entenderá as reais necessidades e em quais caminhos são mais viáveis de serem trabalhados para o caso em questão. Os ingredientes que serão usados no ẹbọ são montados de acordo com três critérios a serem apreciados:
1 – Os Odus presentes;
2 – Quais energias transitam nestes Odus (regentes);
3 – As raízes dos problemas e de onde vem o amparo.
O bàbáláwo poderá confirmar através do oráculo quais são os elementos mais viáveis, e em caso de algo ser inacessível, poderá até mesmo verificar possíveis substituições.
Indo a prática
Após o solicitante passar por um jogo oracular, o bàbá irá preparar o ẹbọ, neste dia, é essencial que o sacerdote também esteja de preceito para iniciar o rito. As plantas e ervas poderão ser usadas frescas, secas, de acordo com o caso, possa ser que ocorra alguns bate folhas, no corpo da pessoa, além de possíveis banhos a serem passados, junto com pronunciamento de rezas e de cantigas que serão feitas. De fato, algo em comum em todo ẹbọ, seja de comidas montadas, animais ou ervas/plantas, é que sempre o bàbá invocará a força dos Odus (portais, caminhos) e os seres divinizados que estavam presentes no jogo, ordenará que as negatividades vão embora e em seguida, começará invocar positividades pra aquela pessoa ou lugar.
No dia do ritual, o solicitante poderá entrar de preceito antes de ser feito e no término do ẹbọ, as proibições são temporárias e pode incluir evitar certos atos, pronúncias de palavras, consumo de algumas bebidas e alimentos, entre outros, sendo uma manifestação de fé e dedicação.
Na minha família tradicional, temos alguns rituais onde é preparado um banho, em alguns casos feitos até por caridade: é usado uma água específica para preparação, certos objetos sagrados são usados, pós são utilizados encantando e adicionando num banho, além de toda magia dando objetivo para aquilo e entregamos para aquela pessoa ou enviamos pelo Correios, este também é uma forma de ẹbọ ewé, mas devo salientar que não é uma receita de bolo, toda estratégia para o caso é feita com base em apuração, analisando os três critérios citados anteriormente para melhor tratamento.
Durante o ẹbọ, pode ser necessário o consumo de algumas bebidas, ervas e até mesmo sementes, além de ser passado no corpo, podendo se estender a utilização durante todos os dias de preceito religioso. Uma das formas de limpar por dentro a pessoa, além de revigorar as energias.
Ẹbọ é muito além do que pensa!
Este ritual não é apenas usado para curar pessoas ou melhorar energias de algum indivíduo, também pode ser usado em locais como casas, apartamentos, templos religiosos e até mesmo em automóveis. Como eu sempre digo “investir naquilo que amamos, é buscar por tranquilidade em nossas vidas”.
Se você procura passar por um ritual deste tipo, o primeiro passo é que se consulte com uma pessoa de sua confiança e tenha em mente que ẹbọ vem de origem yorùbá, então se a religião não for yorùbá ou que tiver como base o Culto Yorùbá, logo, pode até existir medicinas religiosas, mas não haverá em específico o ẹbọ.
E lembre-se: ẹbọ somente podem ser feitos por sacerdotes, pois são pessoas que levam anos se preparando para isso, além de serem escolhidos pelo espiritual. Tentar ordenar que uma energia negativa vá embora, sem ter autoridade e o devido suporte no visível e no invisível, possa ser que seja bastante perigoso, trazendo como consequência o agravamento da situação.




