terça-feira, julho 23, 2024
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Orí na visão iorubá

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A palavra “Orí” significa cabeça. Os povos iorubás utilizam esta palavra para se referir na forma física (Orí òde), como na forma espiritual (Orí inú). E precisamos compreender que há uma enorme diferença entre o Orí e o espírito do corpo. Os iorubás costumam separar e acreditam que cada um dos dois habitam numa parte do corpo. O Orí está ligado a nossa comunicação com a parte mental e o plano espiritual, e muitos confundem achando que se trata do “Òrìsà de cabeça”, na religião iorubá existem rituais específicos para o Orí e para o Òrìsà em que a pessoa pertence.

Segundo o professor de idioma iorubá Vander, criador do Educa Yorùbá, em um de seus ensinamentos a palavra “Orí” possui outros significados, e vejamos!

Orí como preposição:
A palavra Orí sendo usada nesta forma, indica algo que está acima, sobre, em cima, para cima. Dependendo apenas de sua prefixação:
Lórí (Ní + orí) = em cima, sobre.
Fìlà mi ni lórí àga = Meu chapéu está em cima da madeira;
Bàbálórìsà mi jáde lórí agogo = Meu sacerdote de òrìsà saiu em cima da hora.
Sórí (Sí + orí) = Pra cima, em direção a algo no alto:
Gbogbo lo sórí òkè = Todos foram ao alto da montanha;
Ajá mi máa sáre sórí ìbùsùn = Meu cachorro tem costume de correr pra cima da cama;
Orí pode expressar a ideia de liderança, aquele que encabeça, está à frente:
Olórí (Oní + orí) = mais de um sentido.
Senhor da cabeça, líder, pessoa destacada, proeminente.


Orí acompanha o ser humano em toda sua jornada terrena e sua relação com indivíduo é íntima, principalmente na forma de compreensão do mundo e de si mesmo.

Existe um mito iorubá, que conta de um lugar onde os habitantes só tinham cabeças, sem nenhum corpo. Eles se locomoviam saltitando e nunca podiam ir muito longe.
 Aconteceu que um dos chefes responsável por esses habitantes desejava muito conhecer o mundo e decidiu que partiria, secretamente, pela manhã bem cedo.
 Após ter percorrido uma certa distância, avistou uma velhinha olhando para fora da porta de um casebre e ele, gentilmente, perguntou se ela poderia emprestar-lhe o corpo. A velinha respondeu que poderia emprestar, temporariamente, o corpo de seu escravo.
O chefe agradeceu, aceitou a oferta e partiu.
 Mais tarde ele encontrou um homem jovem dormindo sob uma árvore e perguntou-lhe se ele se indignaria a emprestar seus dois braços. Como o jovem não acordou para responder, o chefe pensou que ele estava concordando e pegou os dois braços. Quando partia o jovem acordou, a cabeça agredeceu-lhe e partiu viagem.
Passando mais um tempo, ele chegou a um banco no rio, onde os pescadores estavam remendando suas redes e cantando. E o chefe perguntou se algum deles poderia emprestar um par de pernas. Como eles estavam todos sentados e não iriam caminhar, um dos pescadores de imediato concordou. A cabeça agradeceu-lhe e partiu.
Agora ele se parecia com um homem comum, tinha pernas, braços e um corpo.
À noite, chegou em uma cidade onde estavam festejando, após vários dias de jejum, e por isso, havia comidas em abundância. Ele pediu a uma das pessoas que lhe desse comida e pagou por ela com moedas, o que despertou a curiosidade de diversos moradores.
 Dentre esses moradores havia uma moça que estava muito feliz e dançando, era muito bonita e o chefe se interessou por ela. Para garantir que ela dançasse com ele, atirou nela muitas outras moedas e, ao terminar a noite e a festa, o chefe a convidou para se casar com ele e irem morar em seu país.
No dia seguinte os dois se casaram e começaram sua viagem de volta à terra dos seres que só tinham a cabeça. Quando chegaram ao rio, o chefe tirou as pernas e as devolveu ao pescador. Mais tarde chegaram ao lugar onde o jovem que, ainda dormindo debaixo da árvore esperava o chefe, que entregou seus braços.
 Finalmente chegaram à cabana, onde a velhinha ainda estava olhando para fora do casebre, e o corpo do escravo foi devolvido. E quando a moça viu que seu marido era apenas uma cabeça, ela se horrorizou e fugiu, correndo tão rápido quanto podia e agora que o chefe não tinha nem corpo, braços e nem pernas, não podia ir atrás dela e a perdeu para sempre.
 Na concepção iorubá, o ser humano é formado por cinco elementos principais que são: Ara, Òjíjí, Okan, Èmí e Orí. E podemos através do conto entender que somente o Orí vivia sem outras partes do corpo, mas as outras partes não viviam sem o Orí, porque ele é a parte principal do corpo e que precisa ser muito bem cuidada.


Quando um ser humano nasce em um parto comum, é natural em que a primeira parte do corpo que sai para vir ao mundo é a cabeça, e a natureza nos demonstra com muita frequência a necessidade de cuidados voltados ao Orí.
Ara é o corpo físico, o que em muitos povos consideram a casa ou templo dos demais componentes do ser como um todo.
Òjíjí é a representação mais densa da essência espiritual, é o corpo astral diretamente ligado ao Ara (corpo físico).
Okan é o coração físico.
Èmí esta associado à respiração. É o próprio Sopro Divino e, quando uma pessoa desencarna, os iorubás dizem que seu Emí partiu.

Imagem: Centro Cultural Brasil África.

Orí é o Eu, a criação direta de Olódùmarè, por isso é um Òrìsà (divindade), que possui toda sua grandeza e força. É a essência real do ser. Na religião iorubá, ele é o primeiro Òrìsà a ser louvado, é a representação da existência individual. É aquele que guia, acompanha e ajuda a pessoa como ser físico, desde antes de seu nascimento, durante a vida e após a morte.

Em nosso Orí se encontra guardado todas as recordações pessoais, desde a nossa origem no universo, até mesmo todas as nossas recordações pessoais em vidas passadas e entradas no Órún (mundo espiritual). Podemos dizer, que ele conhece o passado, o presente e o futuro sobre nós mesmos e sobre o universo. Alguns costumam se referir como “faísca divina” e que realmente existe e podemos classificá-lo como um.
 Nosso corpo liga-se a Orí por nosso Elédà (Orísá pessoal), que é a mente superior e a nossa bagagem de inteligência e conhecimento para a sobrevivência no Àyié (terra). É na nossa cabeça que distribuí toda energia que jorra e circula por todo nosso corpo físico e espiritual, é através dela que geramos toda força de que necessitamos em nossa jornada, quer que seja para a saúde, para a prosperidade material ou intelectual e, principalmente, para o equilíbrio psíquico e mental.

Existe uma crença forte em que travamos batalhas em nosso interior. Orúnmìlá nos ensina que temos um lado bom e ruim, eles têm sua morada em nosso Orí. Na maioria das vezes, as pessoas imaginam que são demônios e inimigos exteriores que nos atacam constantemente, apesar de poderem existir, é o nosso próprio Orí, que deve se fortalecer para enfrentar a si mesmo e rechaçar toda e qualquer ameaça de si mesmo e do seu exterior, razão na qual existe um ritual de Bori, que é uma forma de fortalecer e cultuar a cabeça, trazendo positividade e melhorando nossa comunicação com ela.
 Espiritualmente, a cabeça, como o ponto mais alto do corpo humano, representa o Orí. Nesse sentido imaterial também podemos compará-lo ao chakra coronal. Enquanto “Òrìsà Eu” de cada ser humano, e por ser o próprio ser humano em sua essência divina e infinita, é ele que está mais interessado na realização plena e que conhece as suas próprias necessidades e, portanto, da pessoa em sua caminhada pela vida terrena, pois é ele quem, através do ser humano, cumpre seu destino.
• Orí é o inconsciente, a cabeça física é o consciente.

Imagem: Centro Cultural Africano.

A sabedoria dificilmente poderá ser acessada por um Orí ruim e negativo.
Dizem os povos iorubás que nada se faz sem um bom Orí, nem mesmo o corpo tem comando. Sem o equilíbrio do Orí nada se desenvolve, nada prospera, não há alegrias, não há saúde, até mesmo a comunicação com os outros Orísás se torna difícil.
 Se o pensamento provoca a ação, a ação provoca a reação e é por isso que se diz que colhemos o que plantamos.
Os frutos gerados, e que serão colhidos, são a resposta a nossos pensamentos, que determinam nossa conduta, e a resposta se apresenta em nosso equilíbrio mental, emocional e psíquico, refletindo no corpo e em como nos relacionamos como meio em que estamos inseridos.
 Os fatores exteriores também podem atuar sobre as pessoas, por exemplo, alguém que não quer ver bem do outro, que tenha inveja, mas mesmo enfrentando essas interferências a pessoa que tem um Orí forte encontrará a força interior que permitirá suportar e continuar sua vida, talvez não na plenitude de seu próprio destino, mas enfrentará sem ser completamente infeliz e no final vencerá esses inimigos, pois não alimentará o pior de todos, seu lado interior que não é bom.
 Nesse contexto os iorubás dizem:
“As pessoas não querem que você sobreviva, mas o seu Orí trabalha para você.”
 
Um Orí bom, é um Orí positivo, ele se torna resistente e forte, capaz de cuidar do Homem e lhe garantir a sobrevivência social e suas relações com a vida.

Referências
Alguns trechos foram extraídos do livro IFÁ FILOSOFIA E CIÊNCIA DE VIDA do autor Otunba Adekunle Aderonmu.
Fotografias feitas pelo Babalawo Olaifa Tunde Alberto Junior, no Centro Cultural Brasil África e no Centro Cultural Africano.
Techo com explicações das proposições da palavra Orí: Professor Vander, da instituição Educa Yorùbá.

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