terça-feira, julho 5, 2022
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Raízes do canto gregoriano

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Conheça a história desse canto sagrado, desde sua formação até seu auge e decadência, e algumas de suas principais características.

Texto • Fabiana Oliveira
 
O canto gregoriano é a forma mais antiga de música que sobrevive no Ocidente. Também conhecidas como cantochão, são as músicas dos serviços litúrgicos na Igreja Católica Romana. São canções vocais, compostas a partir dos textos bíblicos. Por isso, foram chamados com frequência de “uma Bíblia cantada”. Ligado intimamente à liturgia, o objetivo das melodias do canto gregoriano é favorecer o crescimento espiritual em todos. Para os que os cantam é, sobretudo, um momento de oração. 
O canto gregoriano surgiu com os primeiros cristãos que, sofrendo inúmeras perseguições, eram obrigados a realizar seus ritos em catacumbas. Ali, sua sensibilidade e espiritualidade se transformavam em música. Em 313, quando o Imperador Constantino concedeu liberdade religiosa aos cristãos, todas as formas de culto mudaram. E em 391, quando a Igreja Cristã foi declarada Igreja do Estado do Império Romano, os cantores profissionais asseguraram que as melodias religiosas se disseminassem através de toda a nova Igreja.
O nome canto gregoriano surgiu como uma homenagem ao papa Gregório Magno (590-604), que fez uma coletânea de peças, publicando-as em três livros: Graduale(cantos solos e corais para todas as festas católicas); Kyriale (cantos para as partes fixas das missas); e Antiphonale (cantos, hinos e orações dos monges). Além disso, Gregório também iniciou a Schola Cantorum, um grupo de ministros que se dedicavam exclusivamente às basílicas romanas e que contribuiu enormemente para o desenvolvimento do canto gregoriano.  

O auge
Durante o século 8, o coração político da Europa Ocidental se moveu para o reino dos francos, o que teve repercussões também sobre a música da Igreja. Em 754, Pepino, o Breve, enviou o monge beneditino Chrodegang, bispo de Metz, a Roma. Chrodegang ficou muito impressionado pela liturgia nas missas papais, que estavam no seu cume artístico por aqueles dias. O bispo, sem dúvida, lembrava-se das tradições piedosas em Metz e persuadiu o Papa Estêvão II a acompanhá-lo à França para colocar as coisas em ordem.
Cantores romanos (entre eles, o famoso Simeon) seguiram o papa para o Norte, onde introduziram seu repertório. Os cantores francos imitaram seus colegas com grande criatividade: tomaram a estrutura melódica básica (Cantilena Romana) e acrescentaram algumas fórmulas tipicamente gaulesas. Esse processo resultou num incrível enriquecimento musical.
Na segunda metade do século 8, a aproximação política entre o reino francês e o papado possibilitou um maior conhecimento da liturgia romana. A coroa francesa decretou, então, sua adoção em todo o reino. Nota-se nesse tempo que os primeiros registros escritos começaram a aparecer primeiramente na França, depois partiu para muito além de suas fronteiras. Apesar das diferenças gráficas, a uniformidade do conteúdo mostra uma leitura única de uma tradição inteira. Os textos (palavras e algumas notações musicais) escritos nos livros transformaram-se em um texto oficial de referência. O fascínio geral do canto romano com sua arquitetura modal passou a atrair os músicos gauleses que, então, utilizaram-no de uma maneira completamente diferente.
Inicialmente, os registros serviram como uma espécie de memória para garantir a performance e a interpretação adequada. Os tons musicais ainda eram ensinados “de ouvido”. Com o aumento gradual de indicações nos manuscritos, porém, houve uma diminuição no papel da memória oral. Em conseqüência, o canto gregoriano entrou em total decadência no final da Idade Média: os manuscritos oferecem pouco mais do que “uma sucessão pesada e maçante de notas quadradas”.
 

O resgate
No Renascimento, o canto gregoriano foi redescoberto. As melodias foram “corrigidas” pelos estudiosos de música da Igreja, assim como as composições literárias, que são o texto oficial da liturgia romana. A forma que persistiu por 200 anos é conhecido como o “canto simples”.
A Abadia Beneditina de Solesmes, na França, entre Les Mans e Angers, foi pioneira na revitalização do canto gregoriano a partir de 1833.  O enorme trabalho empreendido pelos monges resultou em publicações mais tarde declaradas livros oficiais da Igreja Católica Romana.
 
Canto de louvor
O canto gregoriano é geralmente utilizado a serviço das práticas litúrgicas: dos ofícios e da missa. Os ofícios consistem, basicamente, na entoação dos salmos cantados – desde a Idade Média – pelos monges nas chamadas horas canônicas, denominadas: matinas, laudas, primas, terças, sextas, nonas, vésperas e completas.
A missa, o ato mais importante da Igreja Católica, organiza-se em torno da Eucaristia. Depois de sucessivas adições e alterações, ela chegou a uma forma em voga até hoje. Assim, apresenta uma parte fixa, “o ordinário”, e outra parte, suprimível, ou executada de acordo com a época do ano litúrgico: “o próprio”. 
Kyrie, Glória, Credo, Sanctus, Agnus Dei e Ite missa est ou Benedicamus Domino compõem o ordinário. Intróito, Gradual, Aleluia ou Tracto (este cantado durante a Quaresma), Ofertório e Comunhão compõem o próprio.  
O fato de a missa variar muito, conforme a época litúrgica, explica o grande número de peças que compõem a coleção de cantos.
 

Tempos contemporâneos
Em 1994, houve uma “redescoberta” do canto gregoriano quando foi lançado pela EMI Records, em CD, um disco gravado há mais de 20 anos pelos monges do Mosteiro de Santo Domingo de Silos, norte da Espanha. O disco alcançou o primeiro lugar em vendas em vários países, atingindo a marca de cinco milhões de cópias vendidas. 
Depois desse sucesso foram lançados vários CDs por monges ou corais leigos de várias partes do mundo.
Apesar de o objetivo e características técnicas, por exemplo, permanecerem intactos, é importante dizer que as influências modernas, em dada medida, também atingiram essa música sacra. Admite-se, por exemplo, o acompanhamento de instrumentos musicais, como o órgão, e os cantores não têm de necessariamente ter uma ligação tão estreita com a Igreja.
 
A importância do texto
O canto gregoriano se baseia antes de tudo sobre o texto. Suas raízes estão nos textos litúrgicos lidos em voz alta. A principal prioridade de qualquer cantor ou coro deve ser sempre a clareza e a inteligibilidade. As palavras, as sentenças e os constituintes são parte de um todo  tem de ser cantadas daquele modo. Para garantir a pronúncia adequada, o canto gregoriano está ligado indissoluvelmente ao latim.

Características
• É o canto oficial da Igreja Católica.
• O texto é em latim.
• A importância é dada ao texto e não à música (o objetivo é propagar a fé e não fazer um recital).
• É prosódico (um tipo de canto falado).
• Não há predominância de vozes, ou seja, é homofônico.
• As melodias são simples com pouca mudança de notas e uma tessitura menor que uma oitava.
• É monofônico (uma única linha melódica).
• É diatônico (escalas sem alteração cromática ou microtonal).
• É modal (escalas de sete sons, ligeiramente diferentes das nossas escalas).
• O ritmo depende das palavras, portanto é livre de fórmulas de compasso.
• É cantado “à capela”, isto é, sem o acompanhamento de instrumentos.
• Não há preocupação com a dinâmica.
• O andamento, geralmente, é lento.
• Os compositores são anônimos.

Fonte: triada.com.br


 

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