sexta-feira, maio 17, 2024
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THANGKAS: BUDISMO EM ARTE

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Com cores e alegorias vibrantes, histórias e ensinamentos embutidos, as thangkas encantam o espírito de incrédulos e devotos. Conheça esta rica e complexa pintura tibetana.

Texto • Isis Gabriel / Fotos • Wikipédia
 

Conta-se que Buda emanava um brilho próprio que ultrapassava as percepções humanas. Por isso, os artistas não conseguiam retratá-lo olhando-o diretamente – somente através de seu reflexo espelhado no rio. Certo dia, um rei decidiu presentear o monarca de uma terra distante com uma imagem de Buda. Ao receber o pedido para se deixar retratar, Buda Shakyamuni aceitou o convite com a condição de que os símbolos dos doze elos da existência condicionada e os ensinamentos de como todos os fenômenos surgem na mente, além de uma descrição dos ensinamentos, fossem incluídos abaixo de sua imagem. E assim foi feito. O rei presenteado, ao ver tal obra, ficou tocado por sua beleza e pediu para que lhe explicassem, em detalhes, os símbolos e representações da figura. Depois de ouvir, inspirado, ele começou a meditar. Mais tarde, repleto de alegria, convidou monges para difundirem a doutrina de Buda, o chamado dharma, em suas terras.

Lenda ou não, o fato é que as pinturas sagradas transportadas por monges itinerantes foram um importante instrumento na transmissão dos ensinamentos budistas para povos de terras e diferentes culturas.
 

Lições em forma de arte

As pinturas tibetanas representam iconograficamente a filosofia budista. As imagens, as proporções e o simbolismo das obras condensam antigos textos sagrados e falam diretamente às pessoas, por meio de uma linguagem não-verbal. Mais que isso: as pinturas transmitem valores fundamentais para o budismo, como a interpretação individual dos ensinamentos e a meditação.

A arte da pintura tibetana pode ser vista nos murais de templos e monastérios budistas, em manuscritos iluminados e nas chamadas thangkas. Imagens sacras coloridas em telas de algodão, seda ou linho engomado, as thangkas se popularizaram graças ao fato de poderem ser facilmente enroladas e transportadas.

Durante muito tempo, esse tipo de trabalho foi praticado apenas em torno dos grandes monastérios, afinal, antes de qualquer coisa, realizar uma thangka é um ato religioso. Assim, monges passavam as técnicas somente para monges. Com o passar dos anos, porém, tudo mudou. Hoje, encontram-se thangkas em lojas e até mesmo à venda nas ruas de países asiáticos, onde o budismo é largamente praticado.
 

Susana Uribarri, professora da técnica: “Cada sessão de pintura é um novo ritual”


Geralmente feitas em posição vertical, as thangkas trazem imagens de budas, mestres, bodhisattvas e deidades. São expostas em templos e altares domésticos e utilizadas em cerimoniais e festivais públicos – nesses casos, possuem grandes dimensões e são colocadas em muros de monastérios e na encosta de colinas.

Mas, ao contrário do que acontece com a arte católica, não há adoração das imagens budistas. Os devotos utilizam as thangkas como fonte de inspiração para práticas meditativas e para depreender os ensinamentos de Buda. Representações de Buda e bodhisattvas conferem bênçãos e inspiram a meditação. Imagens de mestres e gurus lembram os ensinamentos. Deidades (yi-dams) despertam para a iniciação de práticas de visualização. Já as figuras iradas (dharmapalas), de cor escura e aspecto terrível, invocam proteção.

Raízes sagradas
A arte sagrada chegou ao Tibete por volta do século 7, quando o Rei do Dharma Srong-btsan-sgam-Po, que oficializou o budismo no reino, casou-se com princesas budistas do Nepal e da China. As moças levaram consigo estátuas e relíquias budistas, e não havia lugares adequados para guardá-los. O rei, então, decidiu construir os templos de Jo-khang e Ra-mo-che para armazenar tais objetos sagrados. A partir dali, patrocinados pelo monarca e sob influências, principalmente, da Índia, China e Nepal, artistas tibetanos começaram a estudar e praticar a arte budista.

Rito cheio de significado

Por seguirem descrições de textos sagrados, as representações iconográficas tibetanas cumprem regras severas para toda a composição das pinturas, inclusive das thangkas.

Tradicionalmente, a preparação de uma thangka é feita em meio a um cerimonial – deve-se meditar, purificar os materiais de uso e o ambiente de trabalho, fazer oferendas e entoar mantras. “Quando o artista começa a fazer um trabalho, o ambiente deve ser modificado dentro do conceito de vacuidade – que não é o vazio e sim a união de tudo com tudo e de onde vêm todas as coisas”, explica a professora e artista plástica budista Susana Uribarri.

Susana, que é argentina e está no Brasil desde 1981, diz que todo esse ritual serve para não contaminar o trabalho com o ego mundano do artista. “Cada sessão de pintura é um novo ritual. Depois que termino, eu ofereço o mérito, porque é para benefício de todos os seres. Tudo que eu fiz ali não foi para mostrar como sou uma boa artista, e sim para que as pessoas que estejam contemplando aquele trabalho consigam alguma forma de benefício”.

Thangka tibetana do século XIX com uma mandala nyingma. Ao meio, Chemchok Heruka (em sânscrito, Mahottama Heruka), a forma irada da budeidade suprema Samantabhadra, com 21 cabeças e 42 braços, junto a sua consorte. Nas duas mãos centrais estão Samantabhadra e Samantabhadrī, enquanto as restantes ao redor carregam as deidades pacíficas: 5 pares (masculino e feminino) de Budas, 8 pares de bodisatvas, 6 sábios emanados (munis), 4 pares de guardiães dos portões.

Sem assinatura
“Pensar em pintar de um jeito que simplesmente vai ficar bonito, neste tipo de trabalho, não tem cabimento. A thangka não é uma invenção do artista, todos os elementos são expressões da divindade”, explica a artista plástica argentina. Por tudo isso, a thangka não leva a assinatura do pintor. O artista pode, no máximo, colocar a data e o nome atrás da tela.

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