terça-feira, julho 23, 2024
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Características do Òrìṣà Èṣù ou Elégbará

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Èṣù ou Elégbará é um dos Òrìṣà que veio do Òrún (céu) para o Àiyé (terra) para harmonizar a vida dos seres humanos para que possam viver em paz. É um Òrìṣà de múltiplos aspectos, o que torna difícil defini-lo de forma coerente. Èṣù gosta muito de provocar brigas, disputas, acidentes, calamidades públicas e pessoais. Verger ²³ cita que ele é astucioso, grosseiro, vaidoso e indecente.
 É uma divindade mágica. Pode criar obstáculos no caminho de alguém somente para dar à vítima a oportunidade de reconhecer seu poder, após o que, ele pode transformar o infortúnio em boa sorte.
Ele é um trapaceiro, mas apenas para aqueles que o depreciam ou diminuem. Ele é a divindade da confusão e da incerteza.
    O Òrìṣà Èṣù não tem religião própria e ninguém é iniciado para seu culto exclusivo. Por meio de sua ação é que aprendemos ordem, disciplina, e organização. É o Òrìṣà mais próximo do ser humano e, ao mesmo tempo, o mais cósmico e universal. Òrìṣà primordial que traz aos homens o equílibrio e revela o limite de cada pessoa. Èṣù é quem propaga todas as informações, que leva os nossos pedidos e traz as respostas dos Òrìṣà. É quem torna possível o fluir do conhecimento entre os Homens.
 Santos ²⁴ aponta que Èṣù está relacionado com os ancestrais femininos e masculinos e com suas representações coletivas, mas ele também é um elemento constituitivo, na realidade o elemento dinâmico, não só de todos os seres sobrenaturais, como também de tudo o que existe. Olódùmarè criou Èṣù como um medicamento de poder transcendental apropriado para cada pessoa, ou seja cada um detém o seu próprio medicamento de poder transcendental e pode utilizá-lo como achar mais apropriado. Da forma como Olódùmarè criou Èṣù, ele deve resolver tudo o que possa aparecer e isso faz parte de sua tarefa e de suas obrigações. Ele deve existir com tudo e morar com cada pessoa e dirigir os seus caminhos da vida.
  O arquétipo de Èṣù é muito comum entre os humanos, onde é muito grande o número de pessoas bipolares, simultaneamente boas e más, porém com uma inclinação para a maldade, corrupção e desregramentos morais. As pessoas influenciadas por Èṣù apresentam caráter variável podendo, a um só tempo, ter boa compreensão dos problemas alheios e serem bons conselheiros, procurando fazer tudo certo. No entanto, podem decidir fazer tudo errado. São pessoas fortes e obstinadas, desordeiros, ciumentos, intrigantes e brincalhões. Gostam de fiscalizar a vida alheia e resolver encrencas ao seu redor.
 No entanto, Èṣù também funciona de forma positiva e quando tratado adequadamente, responde favoravelmente, mostrando-se participativo. Por outro lado, quando as pessoas se esquecem de fazer os ebós e oferendas, ele responde de forma muito contudente.
Por isso Èṣù é considerado o mais humano dos Òrìṣà, pois o seu caráter é semelhante ao do ser humano, em geral muito mutante em suas ações e atitudes.
 Èṣù é um princípio. Pertence e participa de todos os domínios cósmicos e humanos. Ele representa e transporta àṣè que assegura a existência dinâmica permitindo o acontecer e o devir, mantendo a intercomunicação entre os diferentes domínios do Universo. É o representante deste àṣè encontrado em todos os elementos, definindo a ação e a estrutura destes. Èṣù executa o transporte dessa força. O universo africano é concebido como energia expressa no conceito de força vital. A força vital é única e várias são as suas manifestações, sendo transmitidas por intermédio de Èṣù aos seres e domínios do Universo.
Verger ²⁵ cita que, como personagem histórica, Èṣù teria sido um dos companheiros de Odùdúwà, quando chegou à cidade de Ifé, e era chamado de Èṣù Ọbasin. Tornou-se, mais tarde, um dos assistentes de Ọ̀rúnmìlà-Ifá. Epega ²⁶ diz que Èṣù tornou-se Rei de Keto sob o nome de Èṣù Alákétu.
   Èṣù é o Òrìṣà da comunicação. É o guardião das aldeias, cidades, casas e do àṣè, das coisas que são feitas e do comportamento humano. A palavra Èṣù em Yorùbá significa “esfera” e, na verdade, as oferendas em primeiro lugar a fim de assegurar que tudo corra bem e de garantir que sua função de mensageiro entre Òrún e o Àyié, mundo material e espiritual, seja plenamente realizada.
 Èṣù é o mais sutil e astuto de todos os Òrìṣà. E quando as pessoas estão em falta com ele, provoca discussões entre elas e prepara-lhes diversas armadilhas. Um oriki ²₇  diz que: “Èṣù é capaz de carregar o óleo que comprou no mercado em uma simples peneira sem que este óleo se derrame”. E assim é Èṣù, o Òrìṣà que faz: transformar o erro em acerto e vice-versa.
  Nos mitos da concepção do universo, a protoforma da matéria é Èṣù Yangi. Sobre esses mitos, Itaoman ²₈ explica que no princípio nada mais existia que uma massa infinita no ar, terra e água; movendo-se lentamente, uma parte dessa massa formou a lama. Dessa lama, originou-se um rochedo avermelhado ²₉ sobre o qual soprou Olódùmarè, insuflando-lhe o hálito da vida. Assim, surgiu a primeira forma dotada de existência individual: Èṣù Yangi, tornando-se o símbolo por excelência do elemento procriado e o primogênito da humanidade.
  Na África, isto é simbolizado por uma espécie de caracol – o okotô – que possui uma estrutura calcária espilarada. O simbolismo de seu processo de crescimento está em que a sua estrutura começa de um ponto e desenvolve-se espiralmente, abrindo-se mais e mais a cada volta, até converte-se em uma elipse aberta para o infinito.
Assim, toda a criação está ligada a Èṣù e é compulsório que cada criatura existente.
   Santos ³⁰ estabelece por meio da análise dos mitos sobre a divindade, a associação entre Èṣù Yangi e a sua atividade como Èṣù Ójiṣẹ, portador e entregador de sacrifícios, símbolos da restituição.

No Itan Atọ̀run dọ̀run Èṣù é o filho que devorou todos os alimentos da terra e se multiplicou povoando o Òrún e o Àyié. Compromete-se a exigir a devolução de tudo que foi devorado sob a forma de ebó, ³¹ os quais deverão ser efetuados por todos os seres que povoam os dois mundos…
 … É a devolução que permite a multiplicação e o crescimento. Tudo aquilo que existe de forma individualizada deverá restituir tudo a que o filho protótipo devorou.


 

Dessa forma, o significado simbólico da oferenda a Èṣù é manter a harmonia dos cosmos e a integridade de cada ser humano por meio da absorção e a restituição do àṣẹ̀ pela Divindade, ou seja, é o símbolo do princípio da existência individual.
  O culto de Èṣù não repete o modelo dos cultos dos outros Òrìṣà. Acompanhante e elemento inseparável de todos os seres naturais, deve ser cultuado junto de cada um deles. Todos os seres humanos, templos, terreiros, independente do Òrìṣà protetor, deve preceituar seu respectivo Èṣù. Nenhum Òrìṣà movimenta suas forças e energias sem o seu Èṣù.

• Texto extraído do livro Adekunle, Otunba, Ifá Filosofia e Ciência de Vida. 1.ed. São Paulo, 2005.

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