sábado, julho 13, 2024
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Kalunga – A Morada dos Ancestrais

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Você certamente já deve ter ouvido falar sobre ‘Kalunga’ ou em algum momento presenciará dentro da Kimbanda ou Umbanda, o uso frequente desta palavra. Mas o que muitos não sabem, é sobre sua origem e profundo significado, nesta matéria buscarei demonstrar um lado que possa ser que não conheça, confira.

Etimologicamente este termo se originou a partir do idioma quimbundo (ka’lunga), que significa literalmente “mar“, mas pode ser usado para transmitir a idéia de “grandeza” e “imensidão“. Alguns estudiosos relatam que os negros utilizavam este nome para se referir ao deus dos missionários católicos, pois consideravam-no vago como a imensidão do mar.
Para os congos e angolenses, por exemplo, os primeiros a serem trazidos para o Brasil como escravos, Kalunga era uma palavra usada dentro de suas crenças para se referir o mundo dos ancestrais, pois era deste lugar que vinha a força para suportar os períodos tão trágicos e desumanos.

Fotografia realizada em Copacabana, Rio de Janeiro no Brasil.

Ponto antigo cantado por um Preto Velho
Os quindins, os quindins,
Os quindins, ô mujongo
Olha lá no mar
Olha lá no mar, ô mujongo
Olha mujongo no mar
Sua terra é muito longe, ô mujongo
Ninguém pode ir lá
Ninguém pode ir lá, ô mujongo
Olha mujongo no mar…

NOTA: Alguns costumam cantar outra versão, ao invés de dizer ‘olha mujongo no mar’, dizem ‘bota mujongo no mar’, pelo motivo da Terra Ancestral ser tão longe, que a única forma pelos vivos seria cultuando suas entidades na beira do mar, por não conseguirem cruzar o portal para outra dimensão.

Imagem produzida pela nossa equipe para que de uma forma didática, possamos compreender a história que será contada.

Segundo uma história do povo kalunga – o mundo era representado como uma grande roda cortada ao meio, e em cada metade havia uma grande montanha. Numa metade da roda, se encontrava o pico da montanha que ficava virado para cima, mas na outra metade a montanha estava invertida de cabeça para baixo. De um lado da roda, a montanha de cima representava o mundo dos vivos. Do outro, a montanha de ponta-cabeça representava o mundo dos mortos, a Terra de seus ancestrais.

Quando reparamos na cantiga de Preto-Velho exposta anteriormente “sua terra é muito longe… Ninguém pode ir lá…”, justamente pela Kalunga ser as águas que separa as dimensões, um portal de trajeto para o mundo espiritual ou pelo outro lado, uma volta para o mundo dos vivos. Dentro das Umbandas e Kimbandas, existe a Kalunga que se refere aos cemitérios, os antigos costumavam chamar de “Kalunga-Pequena”, devido os corpos serem depositados naquele local. Mas o maior portal está na imensidão, tão vasta de trajeto dos espíritos que é nas águas, conhecida como “Kalunga-Grande”, onde norteia grandes mistérios que ainda não existe tantos conhecimentos voltados sobre este lugar.

Os africanos, principalmente os povos iorubás, levam muito a sério a ideia de respeito com o mar, pois existem até provérbios que dizem “ninguém sabe o que se encontra debaixo do mar verdadeiramente”, um lugar pouco explorado e incapaz do ser humano cavar as areias do mar.

Imagem africana do deus Kalunga Ngombe.

Kalungangombe na África, é considerado um deus angolense das profundezas do globo terrestre, conforme afirma Olga Gudolle Cacciatore (Dicionário de cultos afro-brasileiros, 1977), para ela, Kalunga-Grande passando pelo kimbundo (quimbundo) e sua origem africana, é o mar, o oceano. E Kalunga-Pequena, também possui formação histórica no kimbundo, que se refere ao cemitério, a morte; enquanto kalungas no plural – se refere a falange de seres espirituais ou dos povos kalunga.
Observação: O uso da palavra “Calunga”, também é correto, se refere a adaptação no português-brasileiro.

Imagem: Sergio Amaral/MDS.

É necessário que possamos refletir sobre a visão de mundo que os africanos tinham, pois associavam a palavra Kalunga à morte e o mundo dos mortos, de um jeito muito diferente que os brasileiros, vale ressaltar que na cultura ocidental o cemitério é visto como a morada dos mortos – um lugar tristre e muita das vezes assustador, enquanto para os povos kalunga, era o que tornava uma pessoa renascida, podendo se tornar ilustre e importante, porque mostrava que aquela pessoa tinha incorporado em sua vida espiritual a força de seus antepassados, sendo assim, os reis acreditavam que só governariam enquanto fossem capazes de se manterem um povo unido em torno dessa força.

Interior de um navio negreiro, pintura do artista alemão Johann Moritz Rugendas. (Aprox. 1830).

Os kalungas também são conhecidos como os descendentes de escravos fugitivos e libertos que formaram uma comunidade autossuficiente na região atualmente conhecida como o estado de Goiás, no centro do Brasil.
Dentro da crença afro-brasileira existe entidades chamadas de Kalunga (Calunga), como por exemplo, Calunguinha, Exu Calunga, entre outros, que recebem este nome porque justamente são ligados ao oceano e outros ao cemitério. Na Umbanda existe um seguimento em que as entidades pertencentes a Kalunga-Grande são espíritos ligados a Iemanjá, e os espíritos ligados à Kalunga-Pequena são espíritos que trabalham na linha de vibração do Senhor Omolu.

Imagem: Sereia, óleo sobre tela – Jean Errado.

Cantiga do Exu Calunga

Eu tô te chamando, ó Calunga!
Pra você vir trabalhar,
Quando eu te vejo, ó Calunga!
Vejo também a sereia do mar.

Eu tô te chamando, ó Calunga!
Pra você vir trabalhar,
Quando eu te vejo, ó Calunga!
Vejo também a sereia do mar.

Eu tô te chamando, ó Calunga!
Pra você vir trabalhar,
Chega também a sereia do mar.

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